Começam os artigos sobre os 45 anos

Dois dos astros mais reluzentes da constelação pop, Madonna e Michael Jackson, chegam aos 45 anos neste mês. Madonna faz aniversário no dia 16 e Jackson, no dia 29. Ambos provocaram grande impacto e venderam milhões de discos na década de 1980, mas vivem hoje – se se estabelecer uma comparação com aquela época – praticamente divorciados da indústria do entretenimento.

O declínio, que se traduz nas vendas de CDs, é evidente – a imagem dos dois, fundamental para quem vive no universo pop, se desgastou, notadamente a dele. Os escândalos de Madonna que chocavam conservadores de todas as matizes e que a ajudaram a atingir o estrelato, hoje não produzem tanto efeito. As esquisitices de Jackson – desfiguração do rosto, acusações sexuais – viraram motivo para gracejos e ironias em geral.

Para o crítico Fabian Décio Chacur, porém, é inapropriado falar em ostracismo quando os dois são o assunto. “Jackson, infelizmente, aparece na mídia menos pela música e mais pela excentricidade. Mas as músicas de Madonna, uma das melhores marqueteiras do pop, sempre tocam. Não com o mesmo resultado, mas ainda lá em cima (nas paradas de sucesso). Não vende 10 ou 12 milhões como nos anos 1980, mas ainda vende 3 ou 4 milhões”, diz.

Chacur admite que no universo pop, em que a maioria dos artistas mal tem fôlego para dois CDs, o número de cópias vendidas é parâmetro para discutir princípios artísticos. “Vendagem é um argumento concreto, mas não o único”, afirma. E dá exemplos: “Cindy Lauper, atualmente mais caída que Fernando Collor de Mello”, e “Vanilla Ice, que ninguém em sã consciência compra”. “A indústria pop é cruel. Quem consegue se manter vendendo bem tem seus méritos”, diz.

Autor do livro Os Ídolos do Pop/Rock, Chacur ressalta a “longevidade” de Madonna: “O universo pop olha de lado para quem já passou dos 30 anos”. A constante renovação do visual da cantora e seu aguçado senso de oportunidade são os ingredientes dessa fórmula de sobrevivência em um mundo que faz da inconsistência e da efemeridade duas de suas características principais.

O crítico refuta a teoria segundo a qual a cantora é apenas um fenômeno de marketing. “Se o produto é ruim, pode ir bem no primeiro instante, mas chega o momento em que slogans não resolvem. Se ela fosse só um lance de marketing, já teria acabado. Não tem um vozeirão, mas usa bem o fio de voz que tem. Não é uma compositora fantástica, mas se cerca de gente boa”, afirma.

Já o caçula dos Jackson’s Five, grupo que tornou Michael conhecido, vive um momento artístico infeliz. “Invincible (o CD mais recente do cantor) é insosso e só tem produção. É como um bolo de noiva que tem no recheio uma geléia bem vagabunda. Michael Jackson é uma referência da década de 1980, mas faz uns dez anos que não acerta nada”, diz Chacur.

A receita utilizada por Madonna e Jackson quando despontaram para o estrelato consiste em uma mescla de gêneros que resultou em uma musicalidade apreciada por diferentes tribos. “Madonna teve a capacidade de filtrar várias coisas, do visual meio new wave à dance music. O coquetel sonoro de Thriller (álbum de Jackson lançado em 1982, que vendeu mais de 40 milhões de cópias), com funk, rock e pop, agradou a um público grande. Ambos captaram o espírito da época”, afirma Chacur.

Créditos: Mauro Fernando / Diário do Grande ABC