Madonna faz discurso sobre preconceito e resistência ao receber prêmio de Mulher do Ano

Madonna foi eleita a Mulher do Ano pelo evento Billboard Woman in Music 2016 e fez um discurso sobre preconceito e sua resistência nesses 34 anos de carreira. Ela foi vestida de Gucci e nas costas vinha a palavra Euterpe, em grego, que quer dizer “Deusa da Música que leva alegria”. Acompanhe o discurso abaixo:

UPDATE: Lady Gaga escreveu à Madonna no twitter elogiando o discurso. “O seu discurso no Billboard Awards foi inspirador. Você é tão corajosa e forte! Obrigada por ser isso para nós garotas. Nós precisamos disso.”, escreveu ela.

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“Obrigada por reconhecerem minha habilidade em dar continuidade à minha carreira por 34 anos diante do sexismo, da misoginia gritante, do bullying e abuso constante.

Quando eu comecei, não tinha internet, então as pessoas tinham que falar na minha cara. Havia poucas pessoas em que eu aplaudia de volta pois a vida parecia mais simples. Quando eu me mudei para Nova York, eu era uma adolescente, foi em 1979 e Nova York era um lugar muito assustador. No meu primeiro ano nessa cidade, eu fiquei sob a mira de uma arma de fogo, fui estuprada num terraço com uma faca na minha garganta e eu tive meu apartamento invadido e roubado tantas vezes que eu parei de trancar as portas. Com o passar do tempo, perdi para a AIDS ou para as drogas ou para as armas quase todos os amigos que tinha. Como vocês podem imaginar, todos esses acontecidos inesperados não apenas me ajudaram a me tornar a mulher ousada que está aqui, mas também me lembraram que sou vulnerável e que na vida não há segurança verdadeira exceto a sua autoconfiança.

E entender que eu não sou a dona do meu talento. Eu não sou dona de nada. Tudo o que tenho é um presente de Deus. Até todas as merdas que me aconteceram, tinha que ter acontecido e me fizeram a apreender com isso e me tornar mais forte. Ao receber esse prêmio por ser a Mulher do Ano, eu me perguntei o que eu poderia dizer aqui sobre ser uma mulher na indústria da música. O que posso dizer em ser mulher? 

Quando eu comecei a escrever músicas, nunca pensei especificamente em gênero. Nunca pensei sobre feminismo, eu só queria ser uma artista. Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry e Chrissie Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e feminino e isso me agradava. Ele me fez pensar que não havia regras. Mas eu estava errada. Não há regras se você é um garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que jogar o jogo. Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito esperta. Não haja como você tivesse uma opinião que vá contra algo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma puta, mas não assuma e se orgulhe da puta em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja, e mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada e humilhada e definitivamente não tocará nas rádios.

Quando eu fiquei famosa, havia fotos nuas minhas na Playboy e Penthouse. Fotos que eu fiz quando mais jovem para estudantes de arte e posava para ter algum dinheiro. Elas não eram sexys. Eu poderia ter ficado chateada com aquilo, mas não fiquei. Eventualmente, fui deixada em paz porque me casei com Sean Penn e estava fora do mercado. Por um tempo eu não fui considerada uma ameaça. Anos depois, divorciada e solteira, desculpe Sean, eu fiz meu álbum Erotica e meu livro Sex. Eu me lembro de ser a manchete de cada jornal e revista. Tudo que eu lia sobre mim era ruim. Eu era chamada de vagabunda e de bruxa. Uma das manchetes me comparava ao demônio. Eu disse ‘Espera aí, o Prince não está correndo por aí usando meia-calça, salto alto, batom e mostrando a bunda?’ Sim, ele estava. Mas ele era um homem. Essa foi a primeira vez que eu realmente entendi que mulheres não têm a mesma liberdade dos homens. Eu lembro de eu ter ficado paralisada. (emocionada) Levei um tempo para me recompor e continuar com a minha vida criativa, para continuar com a minha vida. Eu me confortava na poesia de Maya Angelou, nos textos de James Baldwin e na música de Nina Simone. Lembro-me de ter desejado ter uma parceira feminina para que eu pudesse ter melhor apoio. (emocionada)

Camille Paglia, a famosa escritora feminista, disse que eu fiz as mulheres retrocederem ao me objetificar sexualmente. Então eu pensei, ‘Se você é uma feminista, você não tem sexualidade, você a nega’. E eu disse ‘Foda-se. Eu sou um tipo diferente de feminista. Sou uma feminista má’. (aplausos)

As pessoas diziam que eu era controversa. Mas eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar nesse mundo e enfrentar tudo isso. (aplausos). Michael se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney Houston se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas e todo dia eu agradeço por isso. (trecho removido do video)

O que eu gostaria de dizer para todas as mulheres que estão aqui hoje é: Mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque eles valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para serem amigas, para serem aliadas, para aprenderem com elas, para serem inspiradas, para serem apoiadas e para serem instruídas.

Estou aqui mais porque quero agradecer do que para receber esse prêmio. Agradecer não apenas a todas as mulheres que me amaram e me apoiaram ao longo do caminho. Vocês não têm ideia de quanto o apoio de vocês significa. (não vou chorar / aplausos). Mas para aqueles que duvidam e para todos que me disseram que eu não poderia, que eu não iria e que eu não deveria, a sua resistência me fez mais forte, me fez insistir ainda mais, me fez a lutadora que sou hoje. Me fez a mulher que sou hoje. Então, obrigada.”

 
Como tributo, o cantor inglês Labrinth cantou Frozen e Like a Prayer.

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