Jornal O Globo faz matéria sobre os 25 Anos do livro SEX e álbum Erotica

O caderno especial ELA, do Jornal O Globo, fez uma matérias especial para celebrar os 25 anos desse marco na carreira da Madonna. Confira:

Lançados por Madonna há 25 anos, ‘Sex’ e ‘Erotica’ continuam atuais

Livro e disco quebraram tabus sexuais no início dos anos 90

POR EDUARDO VANINI

“Minha vagina é um templo de aprendizado.” A frase, até hoje capaz de desconcertar as mentes mais conservadoras, é apenas uma das muitas confissões sexuais feitas sem nenhum pudor por Madonna em seu livro “Sex”, que há 25 anos botava em xeque os preceitos da moral e dos bons costumes, ao lado do álbum “Erotica”. Era 1992, o feminismo estava muito longe de ser absorvido pelo pop, a homossexualidade era relegada aos guetos e o sexo estava cercado de tabus levantados pela epidemia de Aids. Madonna, então, inundou noticiários internacionais com imagens de nudez, sexo lésbico e sadomasoquismo ao melhor estilo “tirem as crianças da sala”.

Vendido como um livro de arte, “Sex” foi um daqueles produtos do universo pop que monopolizavam a mídia por dias. O pavio foi aceso pela revista “Vanity Fair”, ao qualificar o trabalho como “o mais sujo já publicado” e divulgar um ensaio exclusivo com Madonna encarnando uma ninfeta. Pronto! Todo mundo queria ver o que estava lá dentro. Quando a obra foi finalmente lançada, a embalagem aguçava ainda mais essa curiosidade. Numa alusão aos pacotes de camisinha, o livro vinha numa bolsa lacrada feita em poliéster fino prateado. Para abri-la, era preciso violá-la com tesoura ou faca.

A festa de lançamento foi um bochicho só. O produtor musical americano Shep Pettibone, que trabalhou com Madonna em vários álbuns, conta no livro “Madonna: 50 anos”, de Lucy O’Brien (Nova Fronteira), que havia no evento uma banheira cheia de pipoca com uma mulher nua dentro e uma moça servindo sushi com os seios nus sobre a bandeja.

— Mas a coisa mais louca é que havia umas portas com uns buracos para a gente espiar o que acontecia dentro dos cômodos, onde as pessoas faziam sexo — relembra ele.

O resultado de tanto marketing? Um milhão de cópias logo se esgotaram em todo o mundo. Houve quem se decepcionasse com o conteúdo, é verdade. Muitos críticos classificaram o livro como uma exploração esvaziada do sexo, e outros consideraram as fotos até comportadas diante de tanto estardalhaço. Mas o fato é que as páginas traziam belos cliques do badalado fotógrafo Steven Meisel, em que Madonna aparecia entre lésbicas, usava trajes sadomasoquistas e recheava um sanduíche sexual entre o rapper Big Daddy e a modelo Naomi Campbell.

Apesar da grande tiragem, os livros eram numerados, o que conferia um ar de exclusividade ao produto. Vendido por cerca de US$ 50 nos Estados Unidos e 700 mil cruzeiros no Brasil (cerca de R$ 778, segundo conversão do Banco Central), o preço também fazia com que a obra não fosse das mais acessíveis. Mesmo assim, houve filas de espera e muito burburinho na chegada dos exemplares.

Como noticiado pelo paulistano “Jornal da Tarde” na ocasião, uma unidade foi aberta e exposta na vitrine da Livraria Cultura da Avenida Paulista. Várias pessoas, então, aglomeraram-se para dar uma espiada.

— Isso é um absurdo — protestava um idoso ao diário, enquanto observava uma foto de Madonna dando um beijo na boca de Naomi.

Se muita gente não tinha a grana necessária para se entregar às páginas de luxúria, houve quem capitalizasse em cima da curiosidade alheia. Em Hollywood, um DJ cedia o seu exemplar ao custo de US$ 1 por minuto, para quem quisesse folheá-lo. A livraria Eldorado, em Belo Horizonte, repetiu a estratégia. Como relatou a “Folha de S. Paulo”, os fãs de Madonna podiam alugar o livro por dez minutos no estabelecimento. Para isso, precisavam desembolsar 15 mil cruzeiros (cerca de R$ 17).

A jornalista Erika Palomino acompanhava toda essa repercussão na época. Segundo ela, quando chegava uma notícia de Madonna, mexia-se nas páginas já diagramadas de um jornal para publicá-la com destaque.

— As pessoas ficaram muito chocadas. Nenhuma artista do pop, até então, havia sido tão ousada em assumir publicamente seus desejos e transformar isso em produto. Era uma época em que a comunidade gay estava ganhando mais visibilidade, e foi bastante corajoso por parte dela fazer isso. Certamente, Madonna contribuiu positivamente para esse processo, até mesmo de aceitação pessoal — comenta.

Lançado junto a “Sex”, o disco “Erotica” deixava a cena ainda mais apimentada. O clipe da faixa-título, que no Brasil estreou no “Fantástico”, mostrava a cantora na pele do seu alter ego Dita, inspirado na atriz alemã Dita Parlo. No vídeo, ela protagonizava cenas sensuais à semelhança do livro e terminava nua, pedindo carona na rua. A letra tinha versos como “Quando você colocar sua mão no fogo/ Nunca mais será o mesmo”.

A atriz Regina Restelli, que na época era conhecida como a “Madonna Brasileira” por sua semelhança física com a cantora, teve a oportunidade de assistir ao vídeo antes mesmo de ir ao ar.

— A gravadora tinha acabado de receber a cópia e me convidou. Era uma sensação ver aquilo. Tudo o que Madonna fazia era muito impactante. Naquele momento, ela chutou o balde. Não colocou só o dedo, mas a mão inteira sobre a sexualidade de cada um — recorda-se ela, que estrelou uma festa dada na Lagoa para lançar os produtos dessa fase da popstar. — Lembro-me de ter entrado no evento carregada por uns caras, com um filhote de leão.

Quanto à musicalidade do disco, Madonna buscou um som cru e teria exigido microfones menos sofisticados para que “o som ficasse tão sujo quanto os meus pés”, segundo reportagens. Em várias canções, ela sussurra suas provocações e, para as pistas, tinha uma versão de “Fever”, de Peggy Lee, além de “Bye bye baby” e “Deeper and deeper”. Na cota balada, ficava “Rain”, a canção mais doce do álbum. Todas entraram no repertório da turnê “The girlie show”, que dois anos depois aterrissaria no Brasil.

Para Thiago Soares, pesquisador de cultura pop da Universidade Federal de Pernambuco, “Erotica” é marcante por abordar de maneira tão forte a questão da sexualidade, por meio de uma figura já popularíssima naquele momento.

— A Madonna abriu espaço para a contestação na cultura pop. Algo que, antes, ficava muito restrito às bandas de rock. Com seus discos, ela mostrou que a pista de dança também pode ser um lugar de reflexão — avalia.

Um dos motivos que tornam “Erotica” valioso, na opinião de Thiago, é levantar uma reflexão sexual justamente num momento de eclosão da Aids. Como salienta, Madonna estava tão atenta a isso que no encarte da “Like a prayer”, disco de 1989, já havia um texto sobre o assunto.

— A transgressão não se resume ao fato de ser uma mulher falando de sexo, mas também de estar tocando no assunto quando era encarado como doença. As pessoas não queriam transar. E, por isso, o disco também tem uma lado melancólico muito forte. Em “Bad girl”, é como se ela relatasse a tristeza após uma orgia e, em “In this life”, ela homenageia amigos mortos pela Aids — elenca ele. — Madonna mostrava ali que transformar um tema em espetáculo não significa necessariamente esvaziá-lo.

Agradecimentos a Jose Alessandro.