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GUILHERME SCARPA
Há menos de uma semana do lançamento "oficial" de Hard Candy - décimo primeiro disco de estúdio que acaba de vazar na internet-, Madonna conquista seu 13º number one hit no Reino Unido e realiza novo recorde: 60 músicas no Top 10 da parada britânica, o que a torna a cantora mais ouvida da Inglaterra, segundo mais importante mercado fonográfico do mundo.
Com as faixas disponíveis em sites da web, Madonna, mesmo com grande esquema de sigilo para que o álbum não caia na rede, foi vítima da modernidade e vai conseguir reatar, sem evitar o cliché, o bom relacionamento com as rádios americanas. Atualmente na 7ª posição do Hot 100 da revista Billboard, o single de 4 Minutes [em parceria com Justin Timberlake] chegou a 3ª posição na semana seguinte ao seu lançamento. Embora tenha tropeçado e caído quatro posições, 4 Minutes é a melhor performance de Madonna em 7 anos, quando ocupou a 4ª posição com o hit Don't Tell Me.
Desta vez, a material girl investiu pesado e contratou os três reis magos Timbaland, Pharell Williams e Justin para dar o toque de ouro no novo trabalho. Para isso, mergulhou de cabeça nos batidões que hoje sacodem meio mundo, especialmente os EUA, onde Madonna vinha sendo boicotada desde o lançamento do injustiçado American Life, de 2003. Como muitas vezes em sua carreira, a polêmica falou mais alto - no vídeo da música-título Madonna criticou a postura dos EUA em relação ao Iraque - e acabou encobrindo o que o disco tinha de melhor: a ironia de Madonna e suas letras mais autobiográficas, o que não acontecia desde Like a Prayer [1989].
Com o cancelamento do vídeo de American Life e o filme queimado com todo o séquito de George W Bush [que também dava pinta no clipe, através de um sósia], o disco se tornou o maior fracasso da cantora em termos de vendagens e não emplacou nenhum single no Top 20. Magoada, Madonna se refugiou em Londes e com o auxílio de Stuart Price [produtor musical de três de suas sete turnês] criou o mega-sucesso Confessions on a Dancefloor, uma ode a discoteca com sabor europeu. Mas, isso não foi suficiente para revitalizar sua popularidade nos EUA. Ainda que a turnê do disco tenha sido a segunda mais bem-sucedida de 2006, arrecadando R$ 200 milhões de dólares, bateu recordes de público e o carro-chefe do disco, Hung Up, com sampler de Gimme Gimme Gimme, do Abba, amargou a 7ª posição na parada geral.
Para reatar com a América, Madonna não teve pudores. Foi atrás do arco-íris buscar o pote de ouro pelo caminho mais fácil. Igualando-se a cantoras do gênero como Nelly Furtado, Beyoncè e até Mariah Carey, o resultado do disco mais black de Madonna é regular. Embora lembre uma verdadeira bala doce e dura, com muito recheio no meio, Hard Candy vem com raps de mais, camadas de voz, e lembra a Madonna do começo da carreira. Com produção dividida entre Timbaland e Pharrel, há uma nítida diferença entre as faixas que um e outro produziram. Mas, os elementos estão todos lá: a doçura que o disco se propõe; os batidões que caracterizam o ritmo; e também muitos violões.
'Miles Away', uma das melhores faixas, é deliciosamente recheada. Com sua levada mais acústica, não chega a ser uma balada, e é onde Madonna se funde ao hiphop sem perder suas raízes pop. No começo da música, ela afirma que "acabou de acordar de um sonho confuso". É também a música que vem depois de Heartbeat que, totalmente açucarada, traz a mesma vibe de hits como 'Cherish' e 'True Blue' [grande acerto]. Longe de ser tola, Madonna também construiu um conceito. Mesmo que soe repetitiva em faixas como Candy Shop [primeira faixa, o convite ao pecado], 4 Minutes [a gula incontrolável] e Give It 2 Me [irresistível como roubar doce de criança], Madonna atinge seu climax no meio do disco e depois deixa sobrando aquele pedacinho em que o papel da bala fica colado.
Menos interessantes, faixas como Spanish Lesson e Voices soam meio deslocadas. Mas, na verdade, não estão. Com Madonna é necessário ouvir diversas vezes qualquer novo trabalho seu para entender que viagem ela pretende nos oferecer. Como em suas grandes turnês, tudo parece orgânico, mesmo que chato, às vezes. Por exemplo, entre 4 Minutes e Heartbeat [música onde começa o recheio do disco] existe Give It 2 Me - com agudos ousados de Lady Madonna que lembram sua incursão na trilha sonora do filme Evita [1996] -, que dá uma freiada no hip hop e soa mais dance e eletrônica (ponto para ela!), com os sininhos dos teclados. Tudo leva a algum lugar. E são inegavelmente saborosos os caminhos até o recheio. Mas azeda. Lá no finalzinho de Beat Goes On que, repaginada, quase em nada lembra a versão demo que vazou meses atrás e tinha ritmo e letra muito mais legais.
Se o objetivo de Hard Candy era mesmo recuperar a popularidade de Madonna nos EUA, ela venceu mais uma vez. Ainda assim, será mesmo que a mais nova integrante do Rock N Roll Hall Of Fame precisava descer a esse nível? Como nunca teve vergonha de nada, nem mesmo de ser oportunista, não há dúvidas. Inpensável para muitos e inovador para outros, a viagem de Madonna pelo hip hip vai cumprir a função a que se destina, mas sem o brilho e o conceito político de American Life [mistura de sintetizadores franceses, violões e rap], disco amaldiçoado pelo mesmo público que agora a colocou de volta ao Top 5 da América em apenas duas semanas.
Guilherme Scarpa
Por Guilherme Scarpa
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