Revista 'Genre' - 2002

"Eu estou atrás de uma porta da nossa casa colonial nos anos 70: garagem verde com teto de alumínio, dois carros, e uma grande árvore de carvalho. Mamãe e papai não estão em casa. Aproveito para tirar do bolso meu primeiro cigarro - é um Kool. Eu acendo, trago e fico com vontade de desmair e vomitar. Eu luto para pegar um sanduíche bolonha que levo para o lanche da escola. Vejo um avião a jato riscar o céu azul. Penso em um lugar legal bem longe e neste momento, parece que uma galocha cheia de cimento caiu em minha cabeça. Assim que o avião se afastou, eu comecei a pensar seriamente na proposta da minha irmã em ir morar com ela em Nova York.

O ano é 1983 e ela está em busca de dançarinos para juntos se apresentarem nos clubes noturnos nos arredores da cidade. Parece que ela está escrevendo uma música chamada 'Everybody'. Eu ainda tenho que ouvir isto, mas que diabos ela está aprontando? Com muita fé, esperança e uma grande fobia por cores laranja-cheguei e verde-abacate eu estou entrando no meu avião rumo à Nova York.

Agora, uns 20 anos depois, destino, talento e um inferno de trabalhos árduos eu me sento nesta mesa com minha irmã. É a casa dela em Beverly Hills, 90210. Ela está perto de mim. Seus filhos estão fazendo bagunça sentados no chão, seu marido Guy saiu para fazer um filme. O planeta se tornou seu paraíso e prisão. Então almoçamos, eu e minha irmã, Madonna."


M: É este seu chá de cevada?
C: Sim, mas eu não experimentei ainda.
M: (Com sotaque britânico) é muito bom.

C: Eu não tenho dormido bem.
M: Sério?

C: Eu não sei por que. Tudo começou depois da primeira aula de Cabala que você me convidou.
M: Também não tenho tido noites muito agradáveis. Normalmente tomo um G-ed antes de dormir. Estou tendo terríveis crises de insônia.

C: Pode ser o livro (The Power Of Kabbalah) que você me deu. Estou acostumado a ler antes de ir me deitar, eles costumam me fazer dormir, e este é...
M: Eu sei.

C: Fico pensando, tudo bem, as cortinas, a janela, o universo, a decoração. Eu estou gostando, é foda...
M: Bem-vindo ao meu mundo, ok! Pois é assim o meu mundo agora. O negócio é uma vez que você começou o processo da informação que consta no livro, não fique irritado com coisas sem propósito.

C: O que é isso?
M: É gomasio, tem sementes de gergelim e um pouquinho de sal. É uma delícia!

C: Parece gostoso. Quanto mais leio o livro, mais o Eitan (instrutor de cabala) diz que o conhecimento me faz ter consciência de mim mesmo.
M: Absolutamente.

C: Existem algumas coisas que me deixam confuso, como por exemplo, o surgimento do universo.
M: Sei. A teoria do big bang.

C: Sei o que isto significa, mas a respeito de onde viemos, não estou certo de onde tudo começou. Eu vou te fazer esta pergunta...
M: Tudo bem, pergunte.

C: E agora, que troço é este ai?
M: É tempero de salada, muito bom. O negócio é que você vai pensar - oh, isto não é a teoria da evolução e coisas do tipo, mas na verdade é sim. É algo bem científico.

C: E por que, por que começou tudo. A primeira coisa, o primeiro organismo...?
M: Por causa do criador - caso acredite que existe uma energia maior fora daqui - luz, o criador, Deus, ele, ela ou isto - quis dividir, quis dar algo para alguém, e criar. A história de Adão e Eva é uma metáfora baseada no conceito da origem de tudo e no Po da Vergonha. Você sabe o que é Po da Vergonha? É quando você tem tudo mas não merece nada. É como mimar uma criança, você dá tudo o que ele quer e ele entra em curto circuito. Isto só trás o caos para a sua vida, pois você não merecia o que vai receber. Isto vale para todo mundo. Quando você está junto de uma pessoa que não te merece, acontece este tipo de coisa contra você. Então, te apresento a idéia que o criador nos fez como se fossemos vasos que devem ser preenchidos com aquilo que ele determina como prioridades em nossas vidas. É esta a metáfora do Jardim do Édem. Adão e Eva começaram a querer conhecer o que estava do lado de fora e acabaram comendo o fruto da árvore do conhecimento, do bem e do mal, e (Madonna é interrompida pelas crianças). Ok... estou dando uma entrevista e você pode ir, agora... Então...

C: A cabala afeta seu trabalho?
M: Oh meu Deus, claro. Totalmente. Ela afeta as escolhas que faço. Eu acho que... (o celular toca)

M: (Com uma expressão horrorizada) Você é um celular consciente, não é?
C: (Rindo) Do que você fala? Estou boiando...
M: Claro, ele tem.

C: Agora suas escolhas são diferentes das que você fazia antes da Cabala?
M: Sim, mas eu estava rumando para esta direção aos poucos. Eu nunca quis fazer as coisas pela simples vontade de 'fazer'. Isto não quer dizer que eu não goste mais de coisas fúteis. Adoro comprar sapatos, entende? Em termos de trabalho, tenho muito mais consciência dos meus atos, e principalmente da mensagem que envio para o universo. Há uma luz que envolve o trabalho que estou fazendo, e de alguma forma, esta luz acaba vindo para mim também. Adoro quando uma pessoa me oferece um trabalho legal, que ao mesmo tempo eu consiga ganhar uma boa grana com ele...

C: Você diz isso em um filme?
M: Claro. A primeira coisa que faço é pensar no papel em si. Qual será a mensagem do filme? Se for somente exploração da violência pela violência não me interessa, principalmente porque isso toma muito tempo. Não me interessa colocar minha energia em algo que não acrescente nada ao grande quadro. O que é o grande quadro? Falávamos sobre isso na noite passada. Dividir, ir para o outro lado da sua zona de conforto, de restrições próprias... e todas essas coisas. Se não posso encorporar estes elementos eu não trabalho apenas pelo aspecto financeiro. Não gosto de ficar querendo mais e mais. A filosofia cabalística não tem nada a ver com desistir de tudo e viver de uma forma monástica. Você pode pedir qualquer coisa, desde que você possa compartilhar isto com as pessoas. No meu caso, eu gostei muito de escrever a a canção do novo filme de James Bond que é sobre destruir seu ego, é uma metáfora sobre a luta entre o bem e o mal, e isto está presente no universo dos filmes de 007. Bond está preso e é libertado, como em todos filmes dele, alguém o persegue ou ele persegue alguém, e esta é uma grande luta da bondade contra a maldade. Eu quis falar sobre isso de uma outra forma. É um tipo de metáfora.... Eu luto contra eu mesmo.

C: Certo
M: Sou uma seguidora, mas a forma que a cabala influencia meu trabalho é óbvia. Em termos de história, tento passar uma mensagem, procuro falar sobre coisas. Tenho sucesso no mundo material, ganho dinheiro, e gostaria de dividir com várias instituições de caridade. Quando falo 'dividir' há várias formas de fazê-lo. Guy e eu escrevemos 5 historinhas baseadas no que aprendemos na cabala, mas elas não eram para crianças. Não sei quando serão publicadas. Estamos tentando encontrar neste momento uma companhia que distribua este material. Todo dinheiro que recebermos das vendas irá para centros que ensinam cabala, qualquer centro.

C: E as histórias são...?
M: ...Muito boas. Elas são baseadas nas fofocas que trazem coisas negativas, mas que ao mesmo tempo podem te trazer coisas muito boas. Falamos de uma forma que as crianças possam entender. Eu li algumas para Lola, e quando não funcionavam, ela perguntava "O que? Não entendi nada, isto não faz sentido". Então eu mudava tudo. Ela é o meu guinea pig. Estamos em busca de boas ilustrações, e esta é uma resposta parcial de como a cabala interfere no meu trabalho.

C: Estou curioso em saber como foi fazer seu novo filme, você gostou de fazer? Por que 'Swept Away'? Por que a escolha? Este filme é tão intenso, tem tanta personalidade...
M: Você poderia chamar de história de amor raivosa, mas Guy conseguiu extrair poesia do roteiro. É um filme sobre aquilo que você precisa, e não o que você quer. Tudo começa com uma uma mulher rica e arrogante que possui tudo o que deseja no mundo material. Tem um marido rico, roupas de grife, anéis de diamante. Ela vai para um cruzeiro de férias e ai a ação acontece. Muitas pessoas querem viver da forma que a minha personagem vive, sabe?

C: Bem, é claro. Isto é o desejo da maioria.
M: Exato. Amber possui tudo o que quer, mas não é feliz. Por que ela não é feliz? Porque vive uma vida puramente baseada no aspecto físico, no mundo materialista. Não acredito que seu casamento seja baseado em amor, então, a Amber desconta toda sua infelicidade nas pessoas que trabalham no iate onde está de férias. Ela humilha os funcionários, e deixa claro o tempo todo que é ela quem manda e quem sabe tudo. Minha personagem implica com um cara em particular, Giuseppe, que tem uma vida simples e aprecia a natureaz. Então o destino teria que os aproximar.

C: Este é o cara principal, o que acontece afinal?
M: Ela acaba em uma ilha deserta com ele por causa de seu egoísmo e petulância. Um dia, ao acordar às 6 da manhã, a Amber se vê totalmente sozinha no iate e pergunta: "Para onde foram todos? Por que eles me abandonaram" Por estar solitária decide que "quer sair de lá e ir atrás dos outros tripulantes" Giuseppe diz: "Não Madame, não acho que isto seja uma boa idéia, o vento está mudando, a maré está subindo " Ela insiste para que os dois saiam juntos atrás da tripulação que foi nadar e se divertir.

C: Eu assisti o filme original e achei bastante violento e nem um pouco leve...
M: Bem, felizmente mudamos este aspecto porque acho que no filme original existia uma atração baseada principalmente no sexo e na luxúria dos animais, e isto gera muitas vezes atitudes violentas.

C: Era muito pesado.
M: Sim, mas esta versão é bem mais leve. Ela na verdade aprende como fazer as coisas ele se apaixona. O Giuseppe enxerga seu charme, as mudanças e o senso de humor da Amber. Em uma noite, eles contram uma garrafa cheia de bebida, ficam bêbados e brincam de adivinhações completamente insanas. É muito engraçado.

C: Então é diferente?
M: É diferente do original, na ilha acontecem mais transformações e eles, não vou falar o final, mas eles voltam. Ele quer provar que ela pode amá-lo em qualquer lugar, não somente em uma ilha deserta.

C: Então eles se encontram?
M: Sim, é uma história bem simples, e eu quis fazer este filme por razões bastante óbvias. Eu queria trabalhar com Guy, e achei que era uma boa maneira.

C: Você participa do filme de James Bond?
M: Sim, é uma participação especial. Eu já gravei. Ela é a instrutora de esgrima do James Bond.

C: Eu vi.
M: Sim (com um ar aterrorizado). É terrrivelmente importante.

C: Foi engraçado?
M: Muito. Foi demais, eles são o máximo. Um cara muito charmoso.

C: Pierce Brosnan?
M: Muito profissional.

C: Eu me penduraria nele por alguns motivos diferentes...
M: Você? Ele não é charmoso?
C: Sim. Ele possui um feeling, um algo mais, você sabe o que digo...

M: Oh é sério? Bem, ele é irlandês. Não é embaraçoso?
C: Ele não é um bêbado que faz o estilo Charles Bukowski.

M: Está bem. Não é um bêbado com o qual você consegue algo freqüentemente...
C: Não, mas lembrei curiosamente do Charles. De alguma forma, ele entrou na minha cabeça.

M: Quando?
C: Quando estava na casa de Carbon Canyon. Lembrei dele com você e Sean.

M: Charles Bukowski?
C: Sim.

M: Nossa, que viagem.
C: Ele falando meio bêbado, e tendo que ser carregado. Achei aquela cena bizarra. Eu tenho esta lembrança dele sendo carregado para fora da casa.

M: Bem, ele gostou ao menos dos drinks. De fato ele gostou. Você sabe que ele morreu?

C: Yep.
M: Sim, ele era uma alma atormentada. Um poeta de pensamentos fantásticos.