Jornal 'USA Today' - 2003

A Material Girl conclui após 20 anos que, sim, é tudo uma ilusão

Quem é esta garota?

Atualmente, Madonna empenha-se para não ser nem materialista nem imaterialista. Escarranchando as alturas de riqueza e celebridade durante duas décadas, a diva pop está numa busca por significado. E em 'American Life', isto significa questionar os impulsos por trás de sua própria ascensão a riqueza.

"Pegue isto de mim", diz Madonna, com 44 anos. "Eu desci pela estrada do 'seja tudo o que você puder ser, realize seus sonhos', e estou lhe dizendo que fama e fortuna não são tão brilhantes quanto dizem ser. Vivemos em uma sociedade que parece valorizar apenas coisas físicas, apenas coisas efêmeras. As pessoas farão o que for preciso para chegar nestes 'Reality Shows' e concursos de talentos na TV. Estamos obcecados".

Os cínicos poderiam olhar desconfiadamente para a última metamorfose de Madonna, especialmente considerando a história dela de comercializar estratagemas e golpes súbitos mercenários que provieram vendas de 140 milhões de álbuns. Ao contrário dos disfarces astutamente feitos da gatinha de sexo de Erotica ou a estrela de moda de Vogue, esta conversão levou sete anos em torno de dissolver a auto-ilusão. American Life, seu 10º álbum de estúdio e o primeiro desde Music em 2000, prova a importância do ser.

"Não estou remexendo nas coisas e dilacerando as coisas e sendo provocativa apenas por ser.", ela diz, "Cada pessoa no planeta está vivendo em uma espécie de bolha, presa numa forma programada de pensar, de que todos teremos uma certa quantidade de coisas materiais para que possamos ser percebidos como seres humanos de valor. Eu encontrei uma forma de vida que gostaria de compartilhar. Ao invés das ilusões, de quem fui escrava durante toda minha vida, eu sinto uma tremenda quantidade de esperança de alcançar uma vida com plenitude e felicidade."

Revelações sinceras, ou queixumes de uma estrela Nova Era? Madonna espera a variedade normal de más interpretações e críticas. A mensagem antiguerra de seu vídeo irônico American Life foi vista por muitos como um ataque ao Presidente Bush, assim como sua decisão de cancelar o vídeo em respeito as tropas no Iraque foi vista como um ato covarde. Ela descobriu que é difícil ser escutada além da cacofonia da mídia e das pessoas que auto se intitulam como peritos em escrever crônicas sobre sua carreira.

"As pessoas ainda não estão entendendo da forma correta", ela diz sobre as entrevistas recentes, "Eu não estou reclamando - Oh, é um saco ser rico e famoso - Eu não trocaria o que tenho. Eu sempre vejo perguntas: O que mais ela poderia pedir? O que falta a ela fazer? Este é um conceito absurdo, porque eu não acho que tenha passado da ponta do iceberg em termos do que posso aprender e alcançar. Eu fui super-ambiciosa, super-trabalhadora, e super-focada, e eu consegui muitas coisas boas que desejei. Mas, agora eu sei que o propósito todo de estarmos aqui não é estar no topo da lista."


A Cabala a ensinou que ela é uma partícula, um átomo

Raio de iluminação

Esperando por seu professor de guitarra, Madonna está lambiscando seu red licorice (É o doce favorito dela, lembram?) em seu conservador escritório na Maverick Records. Ela está com sandálias esportivas, calças e um top que acentua seus braços esculturais e (um detalhe importante) estomago inchado. Sua volta as raízes - cabelos morenos - espalhou rumores de que Madonna estaria grávida.

"Isto é batido também", ela diz de seus cabelos morenos, "tanto que quando eu estava grávida nas duas últimas vezes, eu estava clareando meus cabelos. As pessoas não fazem seu trabalho de casa."

American Life, produzido e escrito em parceria com o colaborador musical Mirwais Ahmadzai, aplica instrumentação de sobra e arranjos organizados para carregar os pensamentos profundamente pessoais de Madonna a respeito do amor, morte, fé, perdão e redenção.

"Estes temas são universais, não são inacessíveis ou abstratos. Não é apenas sobre mim".

Se o pensamento tentador de Like a Virgin é chocante, o ardor da busca pela alma em American Life está em seu coração delicado. Madonna nunca esteve tão vulnerável. Seja quando visita a dor da infância em 'Mother and Father' ou a ambição mal guiada na auto dilacerante 'I'm so Stupid'. Ela expõe metas tóxicas em Hollywood e materialismo na faixa título, uma canção que também serviu à imagem de a guerra-ser-inferno no vídeo por Jonas Akerlund. Ela não ficou espantada que American Life coincidiu com a invasão do Iraque.

"De uma certa forma, é o momento perfeito. Minhas músicas falam sobre abrir mão das ilusões e pensar em como podemos mudar o mundo. Este soldados são de carne e osso. Existem crianças inocentes lá. Nós estamos brincando com a vida, e devemos estar atentos sobre isso."

"Esta negatividade não é real. Nem está fazendo com que as pessoas puxem seu saco e fiquem te endeusando dizendo que tudo o que você faz é maravilhoso. Chegar neste entendimento me fez olhar para trás para todas as escolhas que fiz. O que eu estava pensando? Eu fui guiada por meu desejo egoísta. As vezes, o sucesso é um caminho que o mantém sem prestar atenção no que é realmente importante. Ok, eu estava vivendo num sonho, mas eu acordei." O despertar veio sete anos atrás, quando Madonna começou a estudar Cabala. A tradição mística judaica que antecede religiões e oferece um caminho para a plenitude baseado em leis espirituais do universo. Alguns aspectos são paralelos ao Judaísmo. Ao invés de estudar o Talmud, uma interpretação acadêmica de lei judaica, os Cabalistas abraçam o Zohar, uma interpretação mística que decodifica os textos antigos ao invés de aceitar os contos no sentido literal. Familiarizada com os ensinamentos e origens da Cabala, Madonna se considera uma estudante, não uma guru.

"A Cabala me ajudou a entender que existe uma figura maior e que ser bem intencionado é ótimo, mas se você não vive sua vida de acordo com as leis do universo, você traz o caos para sua vida. Eu fui criada para acreditar que o privilégio de ser Americano significa que você pode ser o que quiser. Mas a pergunta é: para que? Qual é o propósito de atingir o topo? Comecei esta busca quando estava grávida de minha filha, porque de repente percebi que seria responsável por moldar a vida de outra pessoa. Estudar tem me dado claridade e tem afetado a minha vida como um todo."

Em American Life as referências freqüentes a Jesus, oração e religião refletem o reassessment de Madonna de espiritualidade. Criada no católicismo, ela aceitou doutrinas Cristãs sem explorar história ou outras fés, ela diz. A Cabala excessivamente relacionada a física quântica e a teoria científica, alterou a perspectiva dela com relação a religião, como fez também com o diretor de cinema Guy o Ritchie.

"Meu marido não leva nada ao pé da letra. Quando o conheci, ele acreditava completamente na teoria da evolução de Charles Darwin. Ele fez eu questionar meus valores como cristã."

Assim fez uma pesquisa de história. Ao redor de 320, ela reconta, Constantine ganhou controle do Império Romano inteiro, povoado pelos judeus, pagãos e seitas Cristãs, e introduziu o Cristianismo como a única religião permitida.

"Era considerado uma ofensa capital se você não se convertesse. Este é o início da religião em que fui criada. Existe algo de errado nisto. Não acho que exista nada de errado nos ensinamentos de Jesus, mas suspeito de qualquer tipo de organização religiosa. Cabala não tem nada a ver com organização religiosa. Não é julgadora. É um manual para viver."

A educação dela em Cabala é tão humilde o quanto é autorizada.

"Eu sou uma partícula, um átomo. Qualquer coisa física é uma ilusão, mas está lá para nos guiar, para nos testar, para nos deter. Nosso trabalho é navegar por este mundo enquanto entendemos que a única coisa que importa é o estado de nossa alma, e isto é muito difícil porque estou nos negócios de entretenimento, que é completamente baseado na ilusão e nas coisas físicas. Qualquer sucesso que tenho é uma manifestação de Deus. É meu EGO que quer reclamar os direitos autorais. É arrogância e ganância."


No clima de casa

A família foi o outro catalisador para a mudança de Madonna. Ela e o marido moram em Londres com Lourdes, a filha dela com Carlos Léon, e o filho Rocco de 2 anos. Ela quer mais crianças mas nem sempre sentia a coceira materna. "Eu era muito egoísta para pensar em filhos até a metade dos 30 anos. Pela primeira vez em minha vida, eu estou .... Meus filhos são incríveis, graças a Deus. Meu marido é incrível. De uma certa forma eles fizeram eu ter os pés no chão, mas se eu não estivesse estudando Cabala, eu provavelmente teria assustado eles."

"Eu era muito egoísta para pensar em crianças até a metade dos meus 30 anos", ela diz. "Pela primeira vez em minha vida, eu estou em uma família de verdade ao invés de ansiar por uma. Minhas crianças são maravilhosas, graças a Deus. Meu marido é incrível. Em um certo ponto, eles me fundamentaram, mas se eu não estivesse estudando Cabala é provável que eu teria estragado tudo."

Quando o roqueiro Sting e a esposa Trudi Styler a apresentaram a Ritchie em 1998, Madonna soube imediatamente que o par era perfeito. Mas ela se aproximou com precaução, primeiro o idealizando e depois achando defeitos.

"Eu comecei a me afastar dele e a olhar para todos os seus defeitos. Eu tinha uma filha e tinha acabado de terminar um relacionamento. E pensei, ele mora em Londres, eu moro na América; Não vai funcionar. Eu tive que construir meu caminho e ultrapassar todos os bloqueios que construí."

Embora ambos tenham muita força de vontade, o par é um estudo de contrastes.

"Ele é tão desorganizado o quanto eu sou organizada. Ele adora viver de uma forma muito espontânea e eu sou cuidadosa e planejada. Ele me levou para passear num feriado e me ensinou a apreciar a natureza."

Madonna atravessa a maternidade com facilidade relativa, confiando no recurso que guiou a carreira dela: instinto.

Depois de uma carreira desafiando os gêneros e estereotipos, Madonna foi golpeada pelas diferenças entre seu filho e sua filha. Preocupado com carros e caminhões, Rocco ama desmantelar brinquedos e demonstrar sua força física. Lourdes, de 6 anos, se preocupa com moda e exibe uma natureza doce e atenciosa. Ela também é uma mini Madonna.

Eu vejo muito de mim na Lola. Ela é muito dramática e expressiva. Ela adora música. Ela é uma dançarina incrível e uma verdadeira artista. Ela é muito autopossessiva, e ela pode ser muito exigente. As vezes, fico tão frustrada com ela, mas aí me dou conta que ela é o meu reflexo.