Entrevista para a revista 'Jovem Pan'


JP - Como você acabou participando do novo filme de James Bond, em que não só compôs a música-tema como fez o papel da esgrimista Verity?
MADONNA – Um tempão atrás eles pediram que eu compusesse uma canção, e eu recusei, porque achei que seria um tanto previsível – eu fazendo música para um filme de James Bond.... Mesmo porque não sabia se conseguiria compor uma canção naquele gênero. Mas me mandaram uma cópia do script e continuaram insistindo, e implorando. Então convoquei o tecladista Mirwais Ahmadzai, produtor do álbum Music, e criamos uma canção que não tinha coisa alguma a ver com o que acabou sendo o resultado final. Mas já era um caminho. E daí nos disseram que o filme se chamaria Die Another Dav, e decidimos fazer outra canção, com o mesmo nome, que fala justamente de destruir o próprio ego, que para mim é o grande momento de liberação, porque era o tema que estava na minha cabeça. Depois, o diretor (Lee Tamahori) me chamou para fazer uma participação, e eu disse não, porque não me interessa fazer participações. Mas o pessoal da MGM é muito persuasivo (risos) e acabei me divertindo – porque eu tinha muita vontade de aprender esgrima

JP - Você é uma personagem boa ou má no filme de Bond?
MADONNA – Eu sou excelente (risos).

JP - Como é sua personagem em Destino Insólito?
MADONNA – É uma mulher mimada. Como um monte de gente por aí, ela tem uma vida protegida, tem dinheiro bastante para se cercar de ajudantes que fazem tudo para ela, e não sabe como cuidar de si própria. No decorrer do filme ela é domada e precisa aprender a sobreviver sozinha para voltar a ser humana.

JP - O quanto de Madonna existe nessa personagem?
MADONNA – Não vamos comparar uma coisa com a outra! Eu não estava representando a mim mesma. Se for para fazer uma comparação, vamos falar da mudança pela qual você passa quando tem filhos – porque a partir desse momento você precisa pensar em outra pessoa além de você. Era disso que minha personagem precisava: cair na real.

JP - Quais são as vantagens e as desvantagens de ser casada com um homem mais moco?
MADONNA – Não vejo vantagens ou desvantagens em você ser mais velha ou mais moça que alguém. O importante é ter muitas coisas em comum. Você pode ser mais velha e ter uma tremenda atração física por alguém, mas se os dois não estiverem num mesmo patamar, se os dois não tiverem uma visão de vida parecida e não valorizarem as mesmas coisas, não adianta. Tanto faz quem é mais moço ou mais velho, o mais ou menos bem-sucedido.

JP - Quais são as vantagens e desvantagens de trabalhar com seu próprio marido num longa-metragem?
MADONNA – Por sermos casados, a comunicação entre os dois é mais direta, sem rodeios. E isso é muito bom, Quando você dirige alguém com quem não tem muita intimidade, e precisa que essa pessoa passe uma determinada emoção, uma determinada vulnerabilidade, fica cheio de melindres. No mais, quando Guy estava escrevendo o roteiro, conversávamos muito sobre minha personagem – eu sabia o que ele queria e ele sabia o que eu queria, víamos tudo da mesma maneira Portanto, quando chegamos ao set, foi tudo mais fácil. Agora, houve momentos em que ficava irritada com ele, não como diretor, mas como marido. Mas isso eu não podia levar para dentro do set,

JP - De quem foi a decisão de atenuar a violência politicamente incorreta do filme original?
MADONNA – Do Guy. O filme original tinha uma carga política muito pesada Ele achou melhor se concentrar nos dois personagens como pessoas, simplesmente. Como uma estranha história de amor, mas, essencialmente, uma história de amor.

JP - Você acredita que pessoas de classes tão diferentes quanto os personagens do filme poderiam de fato ficar Juntas?
MADONNA – Acho que sim. Os dois são muito inteligentes. Eu acredito que o que une as pessoas não é necessariamente a posição que ocupam na sociedade, mas o caminho e a visão que elas compartilham, quais são suas prioridades na vida.

JP - O elenco e a equipe se sentiram intimidados por você ser Madonna, e, ainda por cima, mulher do diretor?
MADONNA – Na verdade, acabei dando mais duro que todo mundo, porque não queria dar a impressão de estar recebendo tratamento especial. Não recebi – repartíamos os camarins. E fui a única a não ganhar cachê! Acertei com meu marido que trabalharia por amor! (risos)

JP - Guy Ritchie disse que teve ciúmes ao ver você nas cenas de amor com Adriano Giannini. E você, não se sentiu nem um pouco tentada por ele?
MADONNA – (Rindo) Não! Não! Nem um pouco! Sou loucamente apaixonada pelo meu marido! Além do mais, filmar cenas de amor é das coisas mais estranhas e embaraçosas do mundo. Tem uma equipe inteira ali olhando para você. É tudo coreografado, planejado, você põe a mão aqui, aí eu ponho a mão lá... Não tem jeito mesmo de você achar que está tendo um momento íntimo com uma pessoa.

JP - Você gostou de morar em Londres mesmo sendo um lugar onde a imprensa comporta-se de maneira bem agressiva?
MADONNA – Depois de um tempo você se acostuma. Mas eu não leio mais os jornais ingleses. E essa é a melhor maneira de sobreviver na Inglaterra. Além disso, os meses de janeiro, fevereiro e março são barra-pesada. Quase nunca tem sol. E no começo me senti um pouco aprisionada, porque não conseguia dirigir do outro lado da rua, na mão inglesa. Mas finalmente comprei um Mini, aprendi a dirigir um carro de câmbio manual, e então me sentia liberada (risos).

JP - Várias vezes, recentemente, você falou em destruição do ego. Como se faz isso, especialmente sendo Madonna?
MADONNA – Por exemplo, se eu e meu marido estamos discutindo, geralmente quero ganhar a discussão, por nenhuma razão especial, apenas por uma questão de ego. É uma perda enorme de tempo e de energia. Se você se conscientizar disso, você se libera de sentir um monte de coisas desnecessárias, se livra de uma dor que não vai fazer falta. E, sim, é difícil fazer isso quando se é Madonna, mas é difícil para qualquer um. Porque se você for analisar direitinho, a maioria de nossas decisões na vida é tomada por razões egocêntricas. Você não escolhe uma profissão por razões espirituais profundas! Tudo na vida é motivado pelo ego: a necessidade de ser aceita pelas pessoas, a sensação de estar sempre sob julgamento, a sensação de nunca ser boa o bastante, ou bonita o bastante, ou magra o bastante, tudo isso é motivado pelo ego. E meu objetivo agora é ir desbastando meu ego gigante!

JP - Seguindo essa linha de raciocínio, o que você faz hoje em dia para agradar o marido, e o que ele faz para agradar você?
MADONNA – faço muitas massagens nas costas dele (risos). Sou ótima para massagear usando os pés, ao invés das mãos. Sirvo muitas xícaras de chá. São coisas que eu normalmente não faria, se não fosse casada (risos). E ele? Bom, ele usa umas roupas de grife bem legais (risos). E se antes ele gostava de sair com um bando de homens, hoje ele parece mais interessado em conversar com minhas amigas. Sei lá, ficamos muito mais generosos, e de repente percebemos que estamos fazendo coisas que não faríamos caso não tivéssemos nos conhecido e casado.

JP - Você tem receio de amadurecer, deixar de ser um ídolo juvenil?
MADONNA – Olha, isso é parte daquela questão do ego que estávamos discutindo há pouco. Esse medo de envelhecer é puramente um medo que parte do ego, esse medo de não ter mais a mesma aparência que você tinha quando tinha 20 anos, que é o medo de como você vai ser visto e julgado pelos outros. Então, um efeito colateral de você se livrar dos lixos do ego é que você fica com menos rugas, também... (risos)

JP - Você continua envolvida com a Cabala?
MADONNA – Continuo. E queria deixar bem claro que não se trata de uma religião, no sentido de uma religião organizada. É misticismo, uma disciplina mística, e por isso não há conflito com meus outros interesses espirituais, como a ioga. Pelo contrário. A Cabala tem mais de seis mil anos de existência, é anterior a qualquer religião organizada. Venho estudando a Cabala há seis anos e meio, e é a única disciplina espiritual que me deu as respostas que eu procurava. Eu fui educada como católica, e investiguei o cristianismo com toda a sinceridade. Estudei budismo, também. Mas só a Cabala me mostrou o panorama geral, o contexto de tudo, e melhorou minha vida imensamente.

JP - O que mudou mais sua vida: ser mãe ou estudar Cabala?
MADONNA – As duas coisas. Na verdade, uma coisa levou à outra.

JP - E que tal ser mãe de um menino, agora?
MADONNA – É ótimo. Equilibra as coisas. Estou inteiramente apaixonada por ele,
enquanto a Lola (Lourdes Maria Ciccone Leon, sua filha mais velha, nasci-
da em 1996) é mais como uma amiga, uma companheira.