OPRAH 2006: Madonna conta tudo sobre a adoção

Confira aqui no MadonnaOnline a primeira entrevista cedida por Madonna para falar da adoção de seu filho David.

 

INTRODUÇÃO
Para minha convidada de hoje, polêmica não é novidade.

"Algumas semanas atrás, Madonna viajou ao Malauí, um país africano, onde está construindo um abrigo para órfãos. Logo após corre a notícia de que ela e o marido, Guy Ritchie, iam adotar um menino malauiano, Madonna se viu no centro de um furacão midiático, mais uma vez."


Oprah: Madonna diz que está acostumada a críticas, mas que nunca imaginou ser criticada por isso. Até hoje ela não falou sobre a adoção de David, e é um prazer ter você aqui, via satélite de Londres. Como você está?

Madonna: Obrigada por me convidar para fazer o programa. Eu quero deixar bem claro que estou grata a você por me dar essa chace, não de defender o ato de adotar uma criança, mas por me dar a oportunidade de esclarecer tudo.

 

Oprah: Que bom... Para começar, como vão todos: Como vai o David, seus filhos:

Madonna: O David é incrível. O que me surpreendeu mesmo foi como meus filhos são legais com ele e como foi fácil fazer a transição entre um orfanato e nossa casa. É uma alegria te-lo aqui.

 

Oprah: Qual a idade dele, Madonna?

Madonna: Ele têm um ano e um mês.


FOTOS DA FAMILIA RITCHIE COM DAVID SÃO EXIBIDAS.


Oprah: Ele é lindo! Seus filhos se adaptaram bem com ele.

Madonna: E como!! Para minha surpresa, assim que o David chegou, eles o acolheram. Isso é incrível nas crianças: elas não questionam nada. Nenhuma vez me disseram: "Porque ele está aqui?" Nunca mencionaram a diferença na cor da pele ou questionaram a presença dele na nossa vida. E isso é uma lição incrível que as crianças nos ensinam.

 

Oprah: Eu quero q você esclareça tudo. Eu não sei como está em Londres, mas aqui o assunto é uma loucura! A notícia virou manchete. E eu perguntei a platéia se essa notícia é tão importante quanto outras manchetes sobre as atrocidades que acontecem no mundo. Você está sendo alvo de muita atenção. Quando você percebeu o vulto que isso tomou?

Madonna: Eu só soube que a adoção causou tanta polêmica quando voltei da África. No aeroporto havia milhares de equipes de filmagem, jornalistas fazendo plantão na porta de minha casa. Eu não leio jornal nem vejo televisão, mas meus amigos me contaram o que todos andam comentando e o que os jornais vêm dizendo. EU só percebi ao voltar pra Inglaterra. E fiquei muito chocada.

 

Oprah: Você ficou chateada, está com raiva?

Madonna: Eu não diria que fiquei magoada. Eu fiquei decepcionada. Pois da minha parte, eu entendo que fofocas e histórias negativas ajudam a vender jornal. Mas fiquei decepcionada porque, acima de tudo, isso desencoraja outras pessoas a fazer o mesmo. Quem também pensou em abrir sua casa e dar uma vida a uma criança que mora em um orfanato e que talvez não passe dos 5 anos. Quem também tece essa idéia pode ter sido desestimulado. Foi isso que mais me decepcionou. Eu acho que a mídia causou um imenso desserviço a todos os órfãos africanos, não só do Malauí, ao adotar um enfoque tão negativo.

APLAUSOS

 

Oprah: Aqui nos EUA está correndo uma história que diz que você havia pensado em adotar uma criança de um bairro pobre de Los Angeles. E que você falou com Brad e Angelina, que a aconselharam a ir para a África. Há alguma verdade nisso?

Madonna: Não, nenhuma. Eu nunca discuti adoção com Brad e Angelina. Eu não conheço a Angelina Jolie. Meu marido é amigo do Brad porque eles trabalharam juntos em um filme. Nós já jantamos com o Brad depois que a Angelina adoTou um bebê etíope. Mas nunca discutimos o assunto. Eu nunca pedi a orientação deles. Eu nunca pensei em adotar uma criança de Los Angeles nem discuti com ninguém, além do meu marido e da assistente social que cuida de nosso caso, sobre o lugar em que escolheríamos adotar um filho.

 

Oprah: Quando vocês decidiram adotar David?

Madonna: Meu marido e eu decidimos adotar um filho há dois anos. Desde o Live Aid, que eu fiz com o Bob Geldof, eu comecei a prestar mais atenção na África de uma maneira mais específica. Comecei a estudar as estatísticas e a situação geral dos países africanos. Foi o que deu início a tudo. Eu voltei minha atenção à África. Foi então que decidimos adotar. Mas eu não tinha certeza de que país escolheria. A idéia da Raising Malawi, a fundação que eu criei, surgiu em dezembro de 2005. Ou seja, há quase um ano. Eu ainda não tinha pensado em adotar uma criança africana, meu único pensamento era abrir minha casa e dar um lar a uma criança que não tivesse oportunidades. Eu queria ir a um pai de 3° mundo, não sabia qual, e queria dar uma vida melhor a uma criança, que, de outra forma, talvez não sobrevivesse.

APLAUSOS

 

Oprah: Deus a abençoe por isso. Foi muita bondade sua?

Madonna: Como eu criei o programa Raising Malawi, eu soube da existência de vários orfanatos e, por estar financiando um documentário sobre os órfãos no Malauí, eu vi muitos vídeos e fotos das crianças. E a primeira vez que eu vi David foi porque uma menina estava sendo entrevistada – não vou dizer o nome dela pois ela seria assediada pela mídia – é uma menina de 8 anos, soropositiva, que estava sendo filmada, falando com o diretor através de uma intérprete. Ela estava carregando um bebê, e eu fiquei fascinada por ele. Foi a primeira vez que o vi de verdade. Depois, eu perguntei quem ele era, o nome dele, e comecei a juntar informações sobre ele. Mas eu ainda nem tinha pensado em adotá-lo. Eu simplesmente fui atraída por ele.

 

Oprah: A pergunta agora, obviamente, tem relação com a menina de 8 anos, soropositiva, que estava com David no colo. Ele estava num orfanato para crianças soropositivas? Ele tem AIDS?

Madonna: Ele estava num orfanato chamado Mchinji, onde vivem 500 órfãos e que é dirigido por um ser humano fantástico, chamado Reverendo Chipeta, que não pode recusar ninguém. É impossível para ele cuidar de tudo sozinho. Não há comida suficiente, não há remédios. Perguntamos com que freqüência eles lavam roupas e eles nos olharam sem entender nada. Pois cada um só tem uma roupa, que nunca é lavada. Dizer que ele é um santo não faria justiça. O David estava nesse orfanato. Ele era um dos poucos bebês ainda pequenos de lá. A maioria era mais velha, e havia até adolescentes. Eu não sabia se David era soropositivo quando vi as fotos e os vídeos dele. Eu só fui saber do estado de saúde dele quando cheguei ao Malauí. Eu viajei com uma pediatra chamada Sonia Sachs, uma mulher incrível, casada com Jeffrey Sachs, que criou o projeto Millenium Village. Ela esteve sempre comigo durante todas as minhas visitas que fiz aos orfanatos. Não apenas para examinar David ou determinar o estado de saúde das crianças que eu considerava adotar, mas para cuidar da saúde de todas as crianças. Foi muita generosidade dela fazer isso comigo. Ela fez muito mais do que eu havia pedido. Quando fui ao Malauí pela primeira vez, eu não tinha idéia do estado de saúde dele.

 

Oprah: E a saúde dele é boa?

Madonna: É sim. Todos os exames deram negativo: tuberculose, malária, HIV etc. Quando eu o conheci ele estava extremamente doente. Tinha uma pneumonia grave e mal conseguia respirar. Eu entrei em pânico e não queria deixa-lo no orfanato, pois sabia que eles não tinham remédios para cuidar dele. Então conseguimos permissão para levá-lo a uma clínica, para tratá-lo com um broncodilatador que o permitisse respirar. Tiraram um raio-x dele e o médico descobriu que tinha pneumonia. Deram uma injeção de antibióticos e passaram um tratamento que durou todo o tempo que passamos lá. Ele ainda esta um pouquinho doente. Ele não está totalmente curado da pneumonia, mas está muito melhor do que quando o encontramos.

 

Oprah: Nós adoramos saber que ele está bem. Ouça só o que já disseram sobre sua adoção, Madonna. Organizações locais de direitos humanos questionaram legalmente a decisão do governo do Malauí de permitir que você adote esse menino de 13 meses. E que você usou seu dinheiro e fama para acelerar a adoção. E há em breve uma audiência no tribunal. Fale como foi o processe de adoção do David.

Madonna: Bem que eu queria que meu dinheiro e fama pudessem acelerar o processo. Não importa quem você é ou quanto dinheiro têm, nada pode ser acelerado na África.

 

Oprah: Eu já fui lá. Eu entendo.

Madonna: A assistente social que cuidou do meu caso avisou que, como o Malauí não tinha leis de adoção, eles teriam que criá-las, mais ou menos. Ela disse “Vá para a Etiópia ou Quênia, mas não ao Malauí, pois vai ser muito difícil para você”. Como eu já tinha criado a fundação Raising Malawi, já tinha investido muito tempo e esforço, já estava envolvida com os orfanatos de lá e estava construindo um centro para órfãos, me pareceu absurdo sair do Malauí para adotar uma criança.

 

Oprah: Mas você já tinha escolhido David?

Madonna: Tinha sim. Mas também haviam me dito que eu talvez não conseguisse adotá-lo. Me aconselharam ir a todo os orfanatos e escolher outros “canditados”, digamos. Quando eu fui lá, pensei: “Preciso estar preperada para voltar para casa sem o David”. Eu conheci outras crianças que considerei adotar. Se não desse certo com o David, qualquer uma dessas outras crianças seria uma bênção para mim.

 

Oprah: Você alguma vez falou com o pai de David?

Madonna: Falei. Eu conheci o pai de David no tribunal. Existe um costume, uma lei tribal, que diz que, ao adotar uma criança, você deve ter permissão de algum parente vivo. Se os pais morreram, você procura tios, avós ou primos distantes. Eles têm que dar permissão verbal e por escrito dizendo que concordam com a adoção. Quando fui ao Malauí pela primeira vez, eu nem imaginava o paradeiro dos pais de David. Disseram que a mãe morreu de AIDS, assim como seus três irmãos. Eles não sabiam onde estava o pai, nem quem ele era e nem onde estava. Mas, quando eu me interessei por ele, fui ao ministro do Bem-Estar das Crianças e das Mães e ele disse: “Talvez você possa adotar essa criança mesmo sem notícia da morte do pai dela. Vamos procurar o pai para ter a permissão dele.” O que eu sabia era isto: o Davi foi morar no orfanato quando tinha 15 dias de vida. Ele havia sobrevivido à Malária e a tuberculose e que nenhum parente vivo o havia visitado desde que ele havia chegado lá. Portanto, do meu ponto de vista, não havia ninguém cuidando do bem-estar do David. Então Penston Kilembe, ministro do Bem-Estar das Crianças e das Mães, conseguiu localizar o pai de David e pedir sua permissão. Ele contou exatamente o que eu queria fazer, e o pai concordou verbalmente. Mas também precisávamos da permissão por escrito e ele teria que comparecer ao tribunal. Ele entrou no tribunal com meu marido e eu. E nós fizemos a audiência, com um intérprete pois ele não fala inglês e, obviamente, eu não falo chichewa. Ele olhou nos meus olhos e disse que estava agradecido porque eu estava dando uma chance ao filho dele e que, se ficasse com o filho na aldeia com ele, ele acabaria enterrando o filho. Eu não preciso de mais confirmação. E que eu estava agindo bem e que ele concordava.

 

Oprah: Agora ele esta dizendo outra coisa. Segundo os jornais, claro, ele diz que não entendeu completamente o que estava fazendo ao concordar com a adoção do filho. Você acha que isso é verdade?

Madonna: Não, não é verdade. Ele e eu estávamos na mesma sala, e eu estava olhando nos olhos dele. Acho que a imprensa está manipulando o que ele diz. Acho que, a esta altura, ele já deve ter sido assediado pela mídia, que repetiu as mesmas perguntas, que colocou palavras na boca dele e que inventou uma história completamente falsa. A única comparação que eu consigo fazer é esta: imagine uma mulher grávida, que pode ser casada ou não, e que sabe que quer dar o filho para a adoção. É assim que as adoções são feitas no mundo. Então, uma agência de adoção vai até ela e diz: “Achamos uma família que quer adotar seu filho.” Ela dá à luz ao filho, toda papelada é preparada e, normalmente, as duas famílias nunca se encontram. Assim que a criança nasce, ela é entregue a família adotiva. Imagine isso acontecendo com uma mulher e, depois de duas semanas, repórteres batem na porta dela, enfiam câmeras e microfones na sua frente e perguntam: “Você percebeu o que fez?” “Você sabe o que fez?” “Você sabe o que fez e aceita a responsabilidade?” “Você compreende que nunca mais verá seu filho?” E que eles a amedrontem, a façam se sentir culpada, paranóica e ponham palavras em sua boca. Ela acabaria tendo uma crise.

 

Oprah: Foi assim com o pai de David?

Madonna: Certamente. Ele é um homem simples, que mora numa aldeia onde não há nada. De repente, ele se viu cercado de jornalistas do mundo todo, que agiram sem responsabilidade e só levaram caos à vida dele. Eu imagino que a primeira reação dele seja a reação verdadeira, que foi me agradecer por dar uma chance ao filho dele.

 

Oprah: Você disse ao pai que um dia o levaria de volta ou o deixaria fazer uma visita?

Madonna: É claro. Meu trabalho no Malauí só está começando. Minha intenção é ir todo ao ao Malauí, uma ou duas vezes, para acompanhar o Millelium Village, que eu estou construindo com o Jeffrey Sachs, os centros para órfãos que estamos construindo e os muitos projetos que eu iniciei. E eu espero que o David vá comigo nessas viagens, assim como meus dois outros filhos. Após ir a África desta vez, me arrependi de não ter levado meus filhos comigo. A minha meta, que faz parte de um plano maior, é cuidar dos estudos do David e lhe dar a chance de ter uma vida melhor, pois não há forma melhor de fazê-lo voltar para ajudar seu povo, ajudar seus compatriotas e defender seu país do que poder sobreviver, antes de tudo e poder estudar.

APLAUSOS


Oprah: Muito bem! Em que pé está a adoção agora? Os jornais dizem que você poderá ficar 18 meses com ele e que, depois, o governo vai decidir se ele pode continuar morando com você. Isso é verdade?

Madonna: Não. O que temos hoje é a “adoção em termos”, que signifca o seguinte: como eu não podia deixar meu marido e filhos, e ir morar no Malauí por um ano e meio, que é o que dita o costume, eles me permitiram fazer a “adoção em termos”. Nos próximos 18 meses, uma assistente social de Londres vai nos visitar para garantir que ele está bem alimentado, bem cuidado, e que não sofre nenhum tipo de abuso. Ao fim desses 18 meses, ele será legalmente adotado pelo meu marido e por mim.

 

Oprah: O que você quer dizer a todas as pessoas que exploraram essa notícia na mídia como nunca vimos antes? Essas pessoas que estão acusando você de fazer isso para se promover?

Madonna: Humm. Não sei se quero dizer alguma coisa para elas. Como eu disse no começo, para mim, a pior coisa de todas as notícias negativas é desencorajar outras pessoas a fazer o que estou fazendo. E o que eu vi... Eu peço que visitem a África, vejam o que eu vi, andem pelas aldeias e vejam como a morte está presente na vida de todos por ali. Que vejam crianças de 8 anos cuidando da casa toda, vejam mães morrendo com o corpo coberto de chagas, vejam o esgoto a céu aberto, que vejam o que eu vi. O estado é de emergência. E as leis de adoção precisam ser mudadas e adequadas a esse estado de emergência. Acho que qualquer um que vá até lá vai querer dar àquelas crianças uma vida melhor. Acho que essas pessoas deviam se envergonhar por desencorarajem outras pessoas a fazer o mesmo.

APLAUSOS


Oprah: Madonna, muito obrigada. Eu devo dizer, Madonna, que você foi muito corajosa. Eu conversei com a platéia antes de falar com você. Qualquer mãe e qualquer um que sabe o que é criar uma criança sabe que essa decisão só pode ter sido muito sincera, pois é um trabalho que exige muito. E nossa platéia aqui apóia sua decisão. Muito obrigada. Obrigada a você e à sua família. Bravo!

Madonna: Muito obrigada.