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A entrevista abaixo foi publicada pela Folha de SP que traduziu a entrevista original de Madonna dada a International Feature Agency. Entre muitas coisas, ela diz que "ainda tenta criar músicas de sucesso" e que está se adaptando às transformações na indústria musical, momento que define como "a escuridão que precede o amanhecer". Confira abaixo:

Até que ponto é difícil se expressar em suas letras sem abrir mão de sua privacidade?
M: Não acho difícil. As pessoas, em sua maioria, quer escrevam ficção, quer nãoficção, canções pop, roteiros, qualquer coisa, sempre deixarão transparecer algo delas. A maioria das coisas que fiz são, em certa medida, autobiográficas. Mas há um jeito inteligente de contar uma história, colocando nela sua alma, sem revelar detalhes de maneira óbvia.

Você diria que este álbum é sobretudo autobiográfico?
M: Todos os álbuns que fiz foram autobiográficos de alguma maneira. Mas não pretendo identificar que dois versos falam de coisas que me aconteceram ou quais cinco canções falam sobre coisas que aconteceram a outras pessoas.

Por que procurou Justin Timberlake e Pharrell?
M: Porque amo a música deles, e, quando gosto de uma coisa, vou atrás dela [ri]. É isso. Nada de muito intelectual.

Era evidente para você que você queria aquilo?
M: Estava só pensando no que faria a seguir. Eu tinha um álbum que era em sua maioria música house, o anterior ["Confessions on a Dance Floor"]. Estava conversando com Stuart Price, e ele me perguntou o que faria a seguir, e falei: "Não sei". Disse que queria fazer dance, como sempre, mas ele perguntou: "Que música está curtindo agora?". Falei que os únicos discos que adorava eram os de Justin e Timbaland. Ele disse: "Por que não trabalha com eles?" Foi o que fiz.

Como explica que tenha escolhido r&b e hip hop agora?
M: Optei por trabalhar com Justin, Timbaland e Pharrell. Se você opta por trabalhar com eles, é isso que vai receber. É um grande som.

Há poucos artistas capazes de ficar na vanguarda, sempre experimentar o novo. De que forma mudou sua visão de música e vida?
M: Essa é uma gigantesca. Como mudou minha visão da música ou como mudou minha visão da vida? Seja mais específico.

OK, como mudou sua visão da música e do seu trabalho.
M: Prefiro essa . Porque, se você quiser saber como mudou minha visão da vida nos últimos 30 anos, vamos passar seis horas aqui. Como mudou minha visão da música? Se você me como artista, criativamente.

Aos 20 e poucos, você tentava criar músicas de sucesso.
M: Ainda tento criar músicas de sucesso. Todo mundo quer fazer música que as pessoas queiram ouvir. Nunca fiz um disco sem me importar com isso. Minha evolução como ser humano se reflete na música. Quando comecei, fazia canções simples e diretas, tipo "vamos curtir". À medida que fui evoluindo, minha música refletiu isso. Não quer dizer que não possa fazer uma canção sobre dançar e me sentir bem, mas acho que minhas canções atuais têm mais senso de ironia ou contradição que no passado. Gostaria de pensar que são mais complexas, que são um reflexo de como amadureci.

Você pode falar sobre seu processo normal ao compor?
M: Colaboro com pessoas de maneiras diferentes. Posso apresentar uma idéia completa, com a letra inteira escrita, ou, às vezes, uns oito compassos de música inspiram uma letra. Não questiono realmente o processo criativo. Ele acontece como acontece.

"Spanish Lesson" deverá se tornar uma das faixas favoritas do público que fala espanhol.
M: Espero que sim! Essa canção surgiu de uma idéia de Pharrell. Ele disse que havia um novo ritmo que todos em Baltimore estavam dançando, a batida "bmore", com uma dança maluca chamada "percolator". Pharrell pegou clipes do YouTube e me mostrou. Ouvimos várias vezes e começamos a ter a idéia. Falei: "Ok, isso é estranho, mas vou tentar". Decidi fazer da canção uma aula. Perguntei se ele falava outras línguas, e ele disse que sim, um pouco de espanhol. Pedi: "Fale um pouco". Tudo o que sei de espanhol está nessa canção.

Seu último álbum foi disco. Qual seu maior objetivo em "Hard Candy", em termos musicais?
M: Ainda sinto o mesmo. Mesmo na canção "Heartbeat", digo que, quando danço, me sinto livre. Então essa idéia ainda está presente. Mas sinto que estou tratando de temas mais profundos. Falo da luta de um artista, de tentar superar o ego, de enfrentar decepções, problemas com confiança, traição, gratidão temas mais profundos. Mas o tema da dança vai e vem ao longo do disco.

É assustador pôr fim a sua relação de 26 anos com a Warner? Ou você se sentiu liberta?
M: Não é assustador. Nem sequer diria que foi libertador. Foi só o fim de meu contrato. A indústria musical está passando por transformações, então a forma como faço música e a levo às pessoas, como a vendemos e a distribuímos, também tem de mudar. Estou contente com meu novo contrato porque é mais parecido com uma sociedade, e, depois de 25 anos, mereço ser sócia.

Já que citou a evolução do setor musical, o que achou de o Radiohead ter deixado o consumidor decidir o quanto pagaria?
M: Me parece bacana, mas não sei se funciona exatamente. Há um novo mundo lá fora, e as pessoas terão que experimentar muito e cometer erros. Algumas coisas vão funcionar, e outras, não, mas é tudo meio revolucionário. Vivemos um momento estranho a escuridão que precede o amanhecer, antes de sabermos realmente o que virá a seguir.

Está disposta a tentar?
M: Sim. Não sei se quero colocar minhas canções aí e r o quanto elas valem, mas estou disposta, sim, a experimentar coisas novas.

Que expressão visual você procura para este trabalho?
M: A persona que adaptei é a de uma lutadora, uma boxeadora. Acho que este álbum tem um senso de urgência. Tem a canção "Give It to Me". "Give me what you got/ I am going to take on the world" a postura é meio durona, tipo "entre no ringue comigo", então é também por isso que a canção tem o título "Hard Candy", porque a música tem uma doçura, mas também possui algo de duro.

"Hard Candy" é seu 11 álbum. Depois de tantos CDs de platina, turnês e filmes de sucesso, há algo que ainda queira realizar?
M: Não fui posta neste mundo só para fazer discos. Ainda há muito a realizar.

E o que seria?
M: O que eu ainda gostaria de realizar? Quero me tornar um ser humano melhor. Quero aprender mais do que já sei. Gostaria de ser uma mãe melhor, tenho meus filhos para criar. Essa é uma responsabilidade grande, da qual ainda não dei conta. Gostaria de dirigir mais filmes e de escrevêlos. Só fiz um até agora, então, para mim, isso é o início de uma carreira nova. Quero fazer mais discos, porque amo a música.

Quando você escuta uma canção como "Like a Virgin", o que ouve? E, quando vê o vídeo, como vê aquela M: jovem?
M: Acho que "Like a Virgin" é uma espécie de declaração sobre os sons que todo o mundo fazia no início dos anos 80. Tinha uma espécie de inocência. Quando assisto ao vídeo, vejo uma garota inocente e receptiva, entusiasmada com a vida e o início de sua carreira.

Você está perto dos 50 anos. É um marco para uma mulher.
M: Peraí. Pare aí mesmo. Marco para uma mulher?

É um marco para qualquer pessoa. Como você se sente?
M: Em relação ao quê?

A completar 50 anos.
M: 50 anos não é palavrão. Dá para falar essa palavra.

Acha que é um marco?
M: Não acho, mas vivem mencionando isso. É mais uma desculpa para fazer uma festa de aniversário [ri].

Qual o segredo para se manter em forma, física e mental?
M: Em boa parte, reconhecer que não sou dona do meu talento. Só o administrado. Fui abençoada com muitos dons e acho que, quando você pensa que é dona do que tem, esses dons desaparecem.

Isso se aplica ao físico?
M: Bem, adoro dançar. Adoro me sentir fisicamente forte. Na verdade, me sinto mais forte hoje do que 20 anos atrás. Nosso lado físico está ligado à consciência; se a mente for forte, o corpo será forte.

Existe algum segredo que explique sua boa forma física?
M: Existe, sim. Tomo uma poção mágica [ri].

Quando vê como a mídia escrutinando cada nuance das vidas de jovens artistas, em tempos de YouTube, e quando recorda suas aventuras do passado, o que pensa?
M: Não vivi tantas aventuras assim. Acho que não fui tão mal comportada quanto poderia ter sido.

Isso é só uma idéia que as pessoas têm a seu respeito?
M: O que as pessoas pensam que eu fazia aos 20 e poucos? Eu era sensata. Muitos fotógrafos levaram socos, mas não de mim, do meu exmarido [o ator e diretor Sean Penn].

Mas não havia pessoas nos clubes filmando.
M: Fico feliz por não ter passado por isso. Mas eu realmente não fazia tanta coisa interessante.

Como você é como mãe?
M: Sou disciplinadora. Faço meus filhos arrumarem os quartos, não gosto que joguem videogame ou vejam TV, obrigo a fazer a lição de casa.

Lourdes parece ter um senso de estilo próprio.
M: Minha filha tem uma opinião forte sobre roupas e moda. Ela tem um gosto incrível. É muito independente e tem personalidade forte.

Sua filha quer fazer música? Se sim, você vai aprovar?
M: Ela diz que gostaria de ser atriz.

Você gosta da idéia?
M: Não me incomoda.