"TUDO O QUE FAÇO É AUTOBIOGRÁFICO"

A popstar mais influente de todos os tempos fala, em entrevista exclusiva ao The New York Times do seu recém-lançado 11 álbum (de estúdio, sem contar singles, coletâneas e trilhas sonoras), Hard Candy, e libera, quase à força, algumas informações sobre sua vida como mãe de três crianças.

Madonna - Nonnie, para o pai (o vinicultor Silvio Ciccone,76) e Mo, para seus amigos - fará 50 anos em 16 de agosto, mas mantém a fisionomia de quando tinha 30 e o olhar infantil. É quase impossível não pensar em plástica ao olhar seu rosto, porém eu nada pergunto sobre isso.

Desde seu primeiro LP em 1983 - sim, naquela época, os artistas ainda lançavam seus trabalhos nesse formato - , ela vendeu mais de 205 milhões de álbuns, gerou dois filhos - Lourdes Maria, 11, e Rocco, 7 - e adotou um - David Banda, 2 - , casou-se com dois homens - Sean Penn, 47, desde 1985 a 1989, e Guy Ritchie, 39, com que está até hoje (o casamento aconteceu em dezembro de 2000).

Ela costuma falar rapidamente, com um certo sotaque britânico forçado, e me recebe sem maquiagem nenhuma, com os cabelos loiros despenteados (mesmo!) e vestindo um de seus famosos abrigos de ginástica. Fotos estão fora de cogitação, claro.

Madonna combina, com muita esperteza, simpatia e malícia. Seduz conforme intimida seu interlocutor e mostra sua força. Mas ela não é mais aquela "material girl" ou a polêmica mulher que cantava sua paixão por um santo, na década de 90. Hoje, ela se porta mais como uma ouvinte atenta e uma interlocutora cuidadosa, apesar de que, embaixo dessa pele de cordeira, sua brasa ainda arda. Se, num primeiro momento, ela sorri timidamente - revelando sutilmente a fenda entre os dentes da frente, uma de suas marcas registradas - , como uma estagiária numa entrevista de emprego, minutos depois ela já pode estar gritando: "Comporte-se ou saia daqui!", para alguém de seu staff. Os gritos também sobram para a filha: "Isso inclui você, Lola". Mas, como Lourdes Maria é filha de Madonna, ela responde na mesma hora: "E você também, mãe. Comporte-se!"

A primeira vez que a entrevistei foi no início de 1998, em Milão. Ela estava completando 40 anos, era mãe recente, usava cabelos pretos e, claro, apresentava muita atitude. Uma década depois, estamos frente a frente de novo.
Posso gravar nossa entrevista?
(Ela responde seca e muito séria.) Não, prefiro que você memorize minhas perguntas.

Bom, vamos ver as que serão merecedoras de lembrança (ignoro o pedido dela e pressiono o botão para gravar, no meu gravador). Escutei seu novo álbum, Hard Candy. É o seu 11, não? Gostei da faixa She's Not Me.
É mesmo? Por quê?

É a sua cara...
(Sorrindo...) Gosto mais de Candy Shop. Esta, sim, é a minha cara. E também Miles Away e Devil Wouldn't Recognize You, eu amo She's Not Me.

Bruce Springsteen disse que um álbum é a melhor forma de expressão...
Então eu acho que sou uma pessoa afortunada por encontrar outras formas de me expressar. Por exemplo, o filme que eu acabei de dirigir, Filth and Wisdom (exibido no último Festival de Berlim), foi uma maneira de colocar tudo o que amo numa obra. Mas compreendo que a música é mais acessível que um filme.

Pode ser doloroso para seu marido e seus filhos, mas podemos ser honestos aqui: na cultura pop, a polêmica pode ajudar e muito a vender discos. Acredita nisso?
Sim, acredito. Mas não precisa ser a única estratégia. E hoje não é tão difícil ser polêmica. Por exemplo, se você cresce num bairro tipicamente cristão e decide não seguir os dogmas religiosos do lugar, já criou polêmica.

Que tipo de polêmica a incomoda? Li num jornal alemão que seu filme era bom, mas seu marido deveria tê-lo dirigido...
Não leio nada do que escrevem sobre mim. Não leio nenhuma crítica sobre meu trabalho. Aliás, obrigada por ter me contado. Foi um jornal italiano que escreveu isso?

Não, alemão.
Babacas!

Você não leu nenhuma de suas biografias?
Não.

Para me preparar para esta entrevista, li uma delas. Quer ver qual?
Não, porque nada do que escrevem sobre mim nesses livros é verdadeiro. Se você quiser saber algo sobre mim, deve vir até mim e falar comigo.

Vamos combinar que isso não é fácil.
É verdade.

Se suas biografias são furadas, por que não escreve sua versão?
Como artista, tudo o que faço é autobiográfico. Meus filmes e documentários são autobiográficos. Cada álbum meu é levemente autobiográfico. Não estou preparada para escrever sobre mim.

Fica nervosa em público? Aqui, não. Estou falando de shows. Estive na festa beneficente da Gucci, em prol do Malauí - país africano onde seu filho adotivo, David Banda, nasceu -, em Nova York, e você me pareceu nervosa.
Você estava lá? É verdade, eu estava nervosa naquele evento. Afinal, não era um show. Estava ali para salvar um país. Recebendo muita gente rica e poderosa que está acostumada a ser assediada nesse tipo de evento beneficente. Então, eu ficava me perguntando: "Em que o meu evento é diferente dos demais para que as pessoas me ajudem?" Essa responsabilidade me deixou nervosa.

Quando você adotou um garoto malauí, muita gente disse que você o arrancou da família dele. Isso a incomoda? Acha desleal esse tipo de pensamento?
Desleal? Não há uma só pessoa da mídia que me seja leal.

Como pode dizer isso, se não lê nada do que escrevem sobre você?
Os jornais precisam fabricar suas manchetes. Se dizem coisas ruins ou inverdades a meu respeito, o que eu penso é que eles precisam inventar essas coisas para vender seus veículos.

É verdade que Lourdes e Rocco não têm permissão para ver TV?
(Madonna não responde.)

Se a sua filha se transformasse num clone teen, ficaria feliz? O que fará se ela quiser se tornar uma popstar?
Ela pode ser o que quiser. Mas agora o que eu quero é que ela seja criança, que aproveite a idade que tem. Que aproveite o máximo a inocência da infância e cresça o mais anônima possível. Ela vê muitos filmes (cinema) e até tem uma vida social (com as amigas) bem agitada. E não acho que ser anônima deve significar se isolar. Tenho a certeza de que, quando ela visita as amigas, assiste TV. Lola não vive numa bolha. E as escolhas que faço na vida, como mãe e artista, acabam proporcionando a ela a força necessária para amadurecer. Mas tudo a seu tempo

Ela já se parece muito com você...
(Madonna só ri.)

Tem acompanhado as primárias americanas? De qual candidato ou pré-candidato gosta?
Acho muito incrível que uma mulher esteja na corrida para a Presidência, assim como acho maravilhoso que um afro-americano também esteja nessa disputa.

Como pretende comemorar seus 50 anos em 16 de agosto? Com uma grande festa?
Eu sempre comemoro. Sempre faço uma festa de aniversário. Não estou pensando nisso agora. Quando faltar umas seis semanas para a data, vou me preparar, como sempre faço.

Você pretende fazer como os Rolling Stones e continuar se apresentando até quando tiver forças para subir num palco?
Quem sabe? Não estou pensando nisso, em parar. Agora, meu foco está mais no cinema, na direção de filmes. Quando nos encontrarmos novamente, daqui a dez anos, eu te conto o que eu vou fazer, está bem?
Agradecimentos especiais ao Jonathan Jobim Maciel

Contigo!
8 maio 2008
Edição n 1703