Rolling Stone/Edição 1090
Madonna Olha Para Trás
Dias após seu 51º aniversário, a atual rainha do pop reflete sobre três décadas de provocação, escândalo e hits monstros

Tradução: Adriano Luz

Do lado de fora do lar de Madonna em Londres, que está em uma rua singular do bairro de Marylebone, há um sinal que diz “alguém famoso pode ter pensado alguma vez em morar aqui”. Hoje esse alguém está de folga da última etapa de sua "Sticky & Sweet Tour", e a casa está cheia de atividade. No porão, editores estão juntando as partes de dois novos vídeos. Em outro local sutilmente iluminado, com paredes azul-escuro e uma pintura antiga de um carnaval em Veneza, outra equipe alvoroçada: uma assistente, um pedreiro, uma faxineira e a personal trainer de Madonna, que está irritada com uma foto indecorosa de tablóide mostrando ela com braços musculosos. “Recebo milhares de e-mails de pessoas do mundo todo que querem esse corpo,” reclama a treinadora. Mas no mundo de Madonna, depois de 27 anos de escândalos e provocação, a foto desfavorável é só mais um detalhe passageiro. Nas últimas três décadas Madonna vendeu mais de 200 milhões de discos (mais do que qualquer outra cantora, de longe), sua "Sticky & Sweet Tour" é oficialmente a turnê mais lucrativa de um artista solo da história, tendo arrecadado $408 milhões de dólares.

Apenas alguns dias antes de nossa primeira entrevista, 80.000 fãs em Varsóvia cantaram “Parabéns a Você” para ela. Madonna, que fez 51 anos, lutou contra as lágrimas e disse a eles: “Eu amo meu trabalho. Esse é o melhor presente de aniversário da minha vida.”

Durante duas extensas entrevistas, que tiveram continuidade em um hotel palaciano em Budapeste, Madonna – uma artista que raramente olha para trás – cavou fundo em seu inigualável legado musical. Tendo crescido em um subúrbio de Detroit, Madonna teve seu mundo abalado aos 6 anos pela morte de sua mãe. Sempre extrovertida, Madonna se apresentou pela primeira vez em um show de talentos infantis, com o corpo coberto de pinturas. Desafiou seu severo pai ao largar a Universidade de Michigan, aonde estudava dança, e mudou para Nova York em 1978, levando a vida como modelo de nu artístico enquanto se apresentava em clubes como CBGB. Seu álbum de estréia, Madonna, de 1983, continha os hits “Holiday” e “Lucky Star” e foi alçada à fama um ano depois no embalo de "Like a Virgin" – e sua performance reveladora no primeiro MTV Video Music Awards.

Um quarto de século depois, Madonna continua se reinventando. Ela acaba de lançar "Celebration", uma coletânea de dois CDs contendo 36 singles (datando desde "Everybody", de 1982) e duas novas canções, incluindo “Revolver", uma colaboração com Lil Wayne. Ela inicia com o sucesso de 2005 “Hung Up”. “Porque é uma canção fodona,” Madonna explica, mas também porque é o maior single mundial de sua carreira, alcançado o topo dos charts em 45 países.

Quando Madonna aparece nesta manhã, seu rosto está corado da malhação, e ela usa um top preto com estampa de coração e uma fita da cabala em seu pulso esquerdo. Ela não está usando maquiagem e sua voz tem um traço sutil do sotaque britânico que ela adotou ao longo da última década. Desde seu divórcio ano passado do diretor Guy Ritchie, ela mudou de volta para Nova York, onde comprou um casarão no Upper East Side. Vinte anos atrás ela parecia incapaz de não soltar a língua sobre, digamos, os detalhes íntimos de seu arruinado casamento com Sean Penn. Mas agora ela é um pouco mais cautelosa, cuidadosa ao esclarecer os parâmetros de minha perguntas e ao calibrar suas respostas – ela atribui essa cautela, em parte, à cabala. “Eu não acho que fosse cruel, malvada ou sem coração no passado, mas naquela época eu poderia fazer fofoca ou falar mal das pessoas, ou dizer coisas sem pensar nas conseqüências,” diz ela. “[A cabala] mudou meu jeito de olhar para a vida, então naturalmente isso muda meu jeito de pensar sobre a vida: sem pensar como uma vítima, assumir responsabilidade sobre minhas ações e minhas palavras.”

Mas de que ela é chamada? Madonna? Sra. Ciccone? Madge? “Todos que conheço me chamam de M,” diz ela. “Madge é coisa da imprensa na Inglaterra. Ouvi duas versões de onde isso veio. Uma é que Madge é um coloquialismo inglês, como um nome que serviria para uma dona de casa, que é o oposto do que eu sou. A outra é que é uma abreviação para ‘majestade’. Gosto mais desse último.”

Voc cresceu em Pontiac, fora de Detroit, aonde algumas de suas influncias vieram de freqentar festas e churrascos em sua vizinhana amplamente afro-descendente. Do que voc lembra?
A Motown estava em toda parte. Stevie Wonder, Diana Ross e os Jakcson 5, foi o que eu cresci ouvindo. Mas quando estava no colegial nos mudamos para um subrbio que era predominantemente classe-mdia e branca. No havia mais festas caseiras, no havia msica estridente vindo da casa ao lado. Me senti uma estrangeira e foi quando eu criei meu mundo prprio. Foi quando decidi ser uma danarina profissional. Tornei-me mais introvertida, me esgueirava para fora de casa e ia a concertos. Eu estava ciente do poder da msica nesse ponto, no que eu pudesse articular isso com algum.

Quais foram os primeiros shows que voc viu?
Meu primeiro show foi de David Bowie no Cobo Hall [em Detroit] quando eu tinha 15 anos. Ele levava mmicos com ele. Foi impressionante. Gostaria de poder t-lo visto como Ziggy Stardust. Meu segundo show foi de Elton John e o terceiro foi Bob Marley. Nada mal, né?

Nada mal mesmo. Voc bebia nos shows?
Quando eu estava no colegial? De jeito nenhum. Eu era uma nerd. Eu no bebi de verdade at o meu primeiro divrcio [de Sean Penn], aos 30 anos.

interessante ouvir voc falar de Bowie como uma influncia.
Porque todo mundo acha que eu nasci numa discoteca. Meus irmos mais velhos ficavam no poro ouvindo The Who, Rolling Stones e Bob Dylan, "Whole Lotta Love" do Zeppelin, "Baba O'Riley" do The Who.

Voc apresentou "Baba O'Riley" em um show de talentos na stima srie.
Fiz minha amigas pintarem meu corpo com flores e coraes fluorescentes. Usei um par de shorts e um mini-top, e eu simplesmente surtei. Consegui um estroboscpio e uma luz negra. Tenho certeza que todo mundo pensou que eu fosse louca. Foi minha primeira vez no palco. Foi o incio de minhas performances provocativas, eu acho. Peguei e fiz. Nenhuma garota queria conversar comigo depois daquilo, e os garotos me olhavam de forma estranha.

Voc ainda se considera uma nerd?
Eu digo coisas como "oopsie-daisy". Crescendo eu no me sentia interessante, no me encaixava em nenhum grupo. 'Nerd' no uma palavra que as pessoas usam para me descrever, exceto talvez [o produtor de Confessions on a Dancefloor] Stuart Price, que disse uma vez: 'sabe, voc uma nerd por dentro, ningum sabe disso.' Eu tomei como um elogio. Sou tola, boba e desinteressante.

Voc se mudou para Nova York depois de largar a Universidade de Michigan para se tornar danarina. Como voc passou da dana para o canto?
Foi apenas uma questo de circunstncia. Por ser danarina, comecei a fazer audies para musicais, o que me forou a cantar. A maioria das pessoas nas audies era muito mais profissional que eu levavam partituras e entregavam ao pianista e eu simplesmente improvisava e cantava msicas que ouvia no rdio, como da Aretha Franklin ou algum outro embarao ridculo.

Em 1979 voc morava no Queens com Dan e Ed Gilroy, que tinham uma banda chamada The Breakfest Club, qual voc acabou se juntando. Nessa poca voc escreveu sua primeira cano.
Chamava-se "Tell the Truth". Era talvez de quatro acordes, mas tinha versos, uma ponte e um refro e foi uma experincia religiosa. Eu tinha decidido que se eu fosse ser cantora, eu teria que batalhar por isso. Tive que aprender a tocar um instrumento. Morvamos numa sinagoga abandonada no Queens e em troca das aulas de msica eu posava para Dan, que era pintor. Eu era sua musa e ele me ensinava a tocar power chords [acordes na quinta]. Quando eles estavam trabalhando eu tocava bateria. Aprendi ouvindo os discos do Elvis Costello. A um dia escrevi uma cano e as palavras simplesmente saram de mim. Eu fiquei tipo "quem est escrevendo isso?" Quando o baterista deles largou a banda, eu virei a baterista e uma noite no CBGB eu implorei a eles para me deixarem tocar uma msica e tocar violo. O lugar do microfone estava ficando cada vez mais convidativo.

Em 1982 voc assinou um contrato com a Sire Records com a ajuda de demos que incluam "Everybody", que acabou se tornando seu primeiro single. Quando foi a primeira vez que voc se ouviu no rdio?
Eu estava morando no Upper West Side, na esquina da rua 99 com a Riverside e por volta das 7 da noite eu liguei o rdio na minha cama na [estao disco de Nova York] KTU, e ouvi "Everybody". Eu falei "Meu Deus, sou eu saindo dessa caixa." Foi uma sensao impressionante.

Voc ligou para seu pai?
Acho que no liguei para o meu pai. No acho que ele ficaria muito impressionado.

Como voc celebrou?
Naquela poca eu estava andando com muitos artistas grafiteiros, Futura 2000, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat. Jean-Michel me apresentou a Andy Warhol. Lembro que estvamos todos em um restaurante japons na Segunda Avenida com a rua 7, aonde Keith havia feito vrias pinturas na parede, e Jean-Michel estava me dizendo quanto cimes ele tinha por eu estar no rdio. Porque ele achava que eu tinha uma forma de arte mais acessvel e mais pessoas seriam expostas a ela. Andy disse a ele que parasse de reclamar.

Haring, que morreu de AIDS em 1989, e Basquiat, que morreu de overdose de drogas em 1988, foram os artistas que definiram aquela gerao. Como voc os conheceu?
Fui apresentada ao Keith por um colega de quarto, mas j tinha visto seus trabalhos pelas ruas, plataformas de metr e prdios. A comeamos a freqentar [os lendrios clubes de Nova York] Danceteria, o Mudd Club e o Roxy. A trupe [de danarinos de break e hip-hop] Rock Steady estava l. Ns danvamos e assistamos trupes de break l e nas ruas.

Voc grafitava?
Muros, metrs, caladas...

Qual era seu apelido?
Boy Toy (brinquedo de garoto)

No brinca! Quem inventou esse nome?
Pode ter sido o Futura. Ele esperto. Ele pintou todo o interior do meu quarto na rua 99, o que no deixou o dono da casa feliz. Tnhamos uma pequena gangue. [A atriz e amiga] Debbie Mazar fazia parte. Nos denominvamos "Webo Girls", de "huevos", "garotas com ovos".

Voc tem pinturas do Warhol, Haring ou Basquiat?
(risos) Eu que deveria fazer essa pergunta para voc...

Eu estou namorando...
Tem um pouco de cada um. Keith e Andy fizeram quatro obras para mim de presente quando casei com Sean. So fotos minhas da capa do New York Post quando aquelas minhas fotos nuas saram na Playboy e na Penthouse. A manchete diz NO TENHO VERGONHA. Ento eles pegaram todas essas capas do Post e pintaram por cima delas para mim. Esto na minha casa em Los Angeles. Um marco, um momento divisor de guas. Tambm tenho uma jaqueta de couro pintada por Keith Haring da qual eu jamais abriria mo.

Desde o comeo de sua carreira a transformao de sua imagem foi a nica constante. Entre seus dois primeiros lbuns, "Madonna", de 1983 e "Like a Virgin", de 1984, voc passou pela sua primeira grande reinveno, de uma baladeira punk morena para uma loira vestida de noiva. De onde veio aquilo?
Eu no sei. Acho que a msica que comecei a escrever tinha uma qualidade mais sedutora, e inconscientemente me transformei nisso. Tambm tem a ver com o fato de eu estar fazendo mais ensaios fotogrficos. Estava sendo orientada e vestida. Antes disso, eu fazia tudo sozinha. No tinha maquiador, pegava minhas meias de dana e amarrava em volta da cabea, jogava alguns rosrios no pescoo. Depois disso, foi [o fotgrafo] Steven Meisel me colocando em espartilhos. Acho que as pessoas pem muita nfase em toda essa reinveno de minha imagem e sempre foi muito menos calculada do que as pessoas pensam. apenas evoluo e coisas nas quais estou interessada, os livros que leio, filmes ou roupas que vejo. Me chame simplesmente de Zelig. No foi esse o filme de Woody Allen no qual ele encarna a personalidade das pessoas com quem est falando? Acho tedioso ficar igual. Uma garota gosta de mudar o visual.

Quando voc foi nomeada ao Rock & Roll Hall of Fame, mostraram uma montagem em vdeo de sua carreira. Quando voc subiu ao palco, fez uma piada sobre "todos os meus pssimos cortes de cabelo". Para qual era madonnica voc olha com mais desdenho?
Acho que para o conjunto batom-roxo/casaco verde-limo. Muitos daqueles cortes de cabelo. Tudo bem, eram os anos 80. Foi uma era de cortes de cabelo ruins, vamos admitir.

No lado petulante, h uma poca para a qual voc olhe e diga "caralho, eu estava muito gostosa"?
E eu vou admitir isso? E ser aniquilada pelos prximos 10 anos por isso? Essa eu no respondo.

H aquela famosa histria de voc se apresentando no Radio City Music Hall, em 1985, e toda a platia cheia de clones da Madonna. Mas aquela primeira turn, a Virgin Tour, estreou em Seattle, e atravessou o pas. Foi Madonna-mania desde o comeo?
Aquela turn inteira foi louca, porque eu tocava no CBGB e no Mudd Club e passei a tocar em arenas esportivas. Toquei em um teatro pequeno em Seattle e as garotas usavam mini-saias rodadas e meias cortadas abaixo do joelho, luvas sem dedos, rosrios, tiaras no cabelo e grandes brincos de argola. Eu ficava tipo, "Isso insano!". Depois de Seattle todos os shows foram transferidos para arenas. Nunca fiz uma turn de nibus. Todo mundo diz que so muito divertidas.

Você não compôs “Material Girl” ou “Like a Virgin”. Qual foi sua primeira impressão depois de ouvir as demos dessas músicas?
Gostei das duas porque eram irnicas e provocativas ao mesmo tempo, mas tambm no se pareciam comigo. No sou uma pessoa materialista e certamente no era uma virgem, e, a propsito, como voc pode ser como uma virgem? Gostei do jogo de palavras achei que eram inteligentes. So to bobas, so legais.

No materialista?
Sinto-me sortuda por poder comprar uma [pintura de] Frida Kahlo ou viver em uma boa casa, mas sei que posso viver sem essas coisas. Tenho muitos recursos e se eu acabasse em uma cabana de toras no meio da floresta, ia dar certo tambm. Essas coisas no so obrigatrias para eu ter felicidade. o que eu quero dizer com "no sou uma pessoa materialista".

Voc sentiu que aquelas duas canes se tornariam enormes sucessos?
No. Elas simplesmente soaram bem comigo. Nunca fui boa julgadora sobre que coisas sero grandes ou no. As canes que eu acho que so as mais retardadas que escrevi, como "Cherish" e "Sorry", acabaram sendo grandes sucessos. "Into the Groove" outra cano que me sinto retardada cantando, mas todos parecem gostar.

porque "Into the Groove" tem um baixo impressionante.
Sim. Obrigado, Stephen Bray. [Bray, um ex-namorado de Madonna do Michigan, co-escreveu e produziu muitos de seus maiores sucessos dos anos 80]. Sempre comea com o baixo e a batida. Voc constri da base para cima. Como em "Holiday", "Hung Up", "Music". Acho que tem a ver com ser danarina, porque tudo gira em torno do baixo quando voc danarino. Voc tem que sentí-lo no seu centro de gravidade.

Como voc responde a crticas? Quando as fotos de voc nua apareceram na "Playboy" e na "Penthouse", por exemplo, voc foi totalmente provocativa.
Foi a primeira vez que tive conscincia de dizer "Foda-se" com minha atitude. Est tentando me diminuir por causa disso? No vou deixar a opinio pblica ditar meus prprios sentimentos e meu respeito. No vou me desculpar por nada que tenha feito.

Seu ex-empresrio Freddy DeMann pensou que sua carreira estivesse acabada depois da performance no VMA's de 1984. Voc ficou preocupada depois da apresentao?
Ele ficou branco como um fantasma. Ficou muito desapontado comigo, porque eu estava rolando no cho, meu vestido subiu e dava para ver minha calcinha. O que eu estava pensando? "Derrubei meu sapato, no sei como peg-lo e coloc-lo de volta, e vou descer at o cho." Foram muitas coisas. Foi assustador e divertido. E eu no sabia o que aquilo significaria para o meu futuro. Um milho de coisas estavam passando pela minha cabea.

No foram apenas suas performances que foram provocativas. Voc no escreveu "Papa Don't Preach", mas impossvel imaginar qualquer outra pessoa cantando essa msica. O que essa msica exprimiu para voc?
Ela simplesmente se encaixou perfeitamente no meu esprito de confrontar autoridades masculinas, seja o Papa, a igreja catlica ou meu pai e seus modos conservadores, patriarcais.

Qual foi o efeito colateral?
Houve tantos efeitos, eles se confundem. Mas para "Papa Don't Preach" houve tantas opinies, por isso achei to incrvel. Ela a favor de "schma-smortion", como eles dizem no filme Ligeiramente Grvidos? Ela contra o aborto?

Voc teve alguma idia que no colocou em prtica por achar muito extremada?
Fiz um ensaio fotogrfico com Steven Klein para a capa do meu ltimo lbum, pintei meu rosto de preto, exceto pelos lbios vermelhos e os olhos brancos. Era um jogo de palavras. J ouviu falar na Madonna Negra? Tem camadas de significados e por um minuto achei que pudesse ser um ttulo divertido para meu disco. A pensei: "25% do mundo poder entender isso, provavelmente menos. No vale a pena." Acontece a toda hora, porque minhas referncias vo alm da escala Richter. Por isso eu tenho pessoas como o Guy [Oseary, seu empresrio] na minha vida que olham para mim e dizem "No, voc no vai fazer isso."

Muitos fs consideram "Live To Tell" de seu lbum True Blue, de 1986, a cano que define voc. O que voc lembra a respeito de sua composio?
s vezes, quando componho canes, estou simplesmente canalizando. Poderia dizer que "Live To Tell" era sobre minha infncia, meu relacionamento com meus pais, meu pai e minha madrasta. Mas talvez no. Pode ser alguma coisa em um romance do F. Scoot Fitzgerald, ou uma histria que tenha ouvido. verdadeira, mas no necessariamente autobiogrfica. Posso dizer o mesmo de "La Isla Bonita". No sei de onde veio aquilo.

Est me dizendo que nunca sonhou com San Pedro?
Eu nem sei onde San Pedro fica. Naquela poca eu no era uma pessoa que passasse frias em belas ilhas. Eu poderia estar no caminho para o estdio e ter visto uma placa indicando a sada para San Pedro.

Como voc escreveu "Vogue"?
Escrevi quando estava fazendo Dick Tracy. Aps termos filmado, [o ento namorado] Warren Beatty me perguntou se eu poderia escrever uma cano que combinasse com o ponto de vista da minha personagem, que ela tivesse tramado junto. Ela era obcecada por bares clandestinos e estrelas de cinema e coisas desse tipo. A idia da letra veio desse pedido. Coincidentemente eu estava freqentando a Sound Factory e vendo esses danarinos todos fazendo essa nova dana chamada vogueing. E Shep Pettibone, que co-produziu a msica comigo, costumava ser DJ l. Foi assim que a coisa se formou.

Qual foi o maior desafio de sua carreira?
Trabalhar em "Evita" com Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. uma sensibilidade vocal totalmente diferente. Tive que realmente trabalhar com uma treinadora vocal para cantar com fora e convico. Muita coisa havia sido gravada ao vivo e eu estava no estdio de gravao com produtores e compositores estranhos, uma grande orquestra e um grande personagem para viver. A primeira cano que quiseram que eu gravasse foi "Don't Cry For Me Argentina", que a mais difcil. Acho que quase comecei a chorar. Me senti muito intimidada. No meio das gravaes comecei a relaxar.

Em 1998, voc retornou de uma pausa de quatro anos com "Ray of Light". Tendo trabalhado com o artista de eletrnica William Orbit. Por que ele?
Depois de Evita eu tive um beb. Sa do mundo da msica e da cultura pop por um tempo. Voltei me sentindo muito faminta, muito curiosa, procurando algo novo. Durante esse tempo eu ouvia os discos Strange Cargo, do William Orbit. Ele muito excntrico, vive em um mundo prprio. Fiquei longe tanto tempo que quando entrei no estdio com ele senti como se tivesse sido lanada de um canho. Tive muitas idias e Ray of Light reflete isso.

A maioria de seus lbuns foram colaboraes com produtores fora do circuito, como Orbit, Mirwais ["Music", de 2000] e Stuart Price ["Confessions on a Dancefloor", de 2005]. Mas em "Hard Candy", de 2008, voc se voltou para fazedores de sucesso comprovados como Timbaland, Justin Timberlake e Pharrel Williams. O que voc tinha em mente?
Eu sempre penso "Ok, quem est fazendo a msica que eu gosto neste momento?" Eu realmente, genuinamente gosto da msica de Timbaland e Justin. Justin um compositor brilhante, quer dizer, "What Goes Around... Comes Around"? Brilhante. Pensei que seria um desafio trabalhar com ele.

Algum j recusou uma oferta de trabalhar com voc?
Claro. Ou ento "eu no tenho tempo". Quis trabalhar com Eminem. No acho que ele quisesse trabalhar comigo [sorri]. Talvez ele seja tmido.

Em 1996 voc teve sua primeira criana, Lourdes. Desde ento, sua famlia cresceu com Rocco, que voc teve com Guy Ritchie, e David e Mercy, que voc adotou de orfanatos no Malaui. Seus filhos tm msicas da Madonna favoritas?
Definitivamente. Lourdes gosta de todas as minhas canes antigas. Ela realmente gosta dos anos 80, do jeito de se vestir s msicas que ouve. Rocco gosta de qualquer coisa que eu tenha feito com Timbaland. Basicamente, ele um garoto do hip-hop e eletrnica. A favorita de David "Ha Isla", como ele a chama. Ele meu maior f. Todo mundo diz que quando ele assiste ao show, fica paralisado do comeo ao fim, estuda tudo e sabe todos os passos de dana [sorri]. Ele ainda no est manjado como meus filhos maiores.

Voc e Lourdes, que agora est com 12 anos, foram juntas a um show da Lady Gaga em Nova York. Vocs duas vo a muitos shows?
Comeamos agora. Gostamos das mesmas msicas. Acho Lady Gaga tima. Quando a vimos eu senti um tipo de reconhecimento. Pensei "ela tem algo". H algo de bizarro nela. Ela corajosa e engraada e quando falou com a platia pareceu inteligente e experta. Ela nica.

Voc consegue enxergar a ambio de um artista?
Sim. H pessoas como Justin Timberlake, que realmente bonito e descontrado. Ele uma espcie de Cary Grant. Eu amo ele, adoro trabalhar com ele, mas no me reconheo nele. Mas posso me ver em Lady Gaga, no incio de minha carreira, certamente. Quando a vi, ela no tinha muito dinheiro para a produo do show, tinha buracos nas meias e h erros em toda parte. Foi meio bagunado, mas posso ver que ela tem 'algo a mais'. legal ver isso em um estgio bruto.

Outro artista que voc admira Sting. O que voc fala dele?
Eu consideraria Sting meu amigo, mas sou mais amiga de sua mulher, Trudie. Ele um msico incrvel que toca 50 instrumentos diferentes e sempre fico um pouco intimidada por ele. Sempre acho que ele me despreza. No que me despreze, mas eu sou apenas uma pop star. Ele um msico de verdade. No falamos muito de msica quando nos reunimos. Ele geralmente fica de lado jogando xadrez ou tocando algum instrumento de 16 cordas que eu no sei nem o nome.

Ano passado voc e Guy Ritchie se divorciaram...
Voc no precisa diminuir o tom de voz ao dizer isso. No um palavro. Pensei que estvamos falando de msica, porm. Se voc consegue ligar a idia de divrcio msica eu falo com voc a respeito.

Ento vamos falar da letra de "Devil Wouldn't Recongize You", do "Hard Candy": "Eu deveria ir embora / Sempre e sempre / Eu volto para mais."
O que se pode dizer? Foi um ano desafiador. Acho que o trabalho me salvou e sou muito grata por ter tido trabalho para fazer. Eu poderia ter me jogado de um prdio. A vida um ajuste. Est diferente. Meus filhos no esto comigo agora, esto com o pai e eu no fico muito confortvel com a idia de minhas crianas no morarem juntas. H prs e contras, mas me sinto bem agora.

O que voc adora em ter filhos de trs pases diferentes?
Quanto mais diverso o mundo no qual voc vive, mais aberto voc fica. Meus dois filhos mais novos so da frica, que abriu meus olhos e me deu uma nova perspectiva do mundo. Minha casa como um anncio da Benetton. Tenho babs francesas, meus seguranas so israelenses, tenho assistentes da Argentina e de Porto Rico, assim como um assistente e chef japons e outro chef da Itlia. maravilhoso, eu adoro. Eu no faria de nenhuma outra forma. Minha vida uma cacofonia de diferentes lnguas e msicas.

Fui ao show ontem noite em Budapeste. Fiquei impressionado como nenhuma das msicas estavam em seus arranjos originais.
Mesmo minhas novas canes, tenho que reinvent-las, ou depois de alguns meses eu enjo delas. Quando voc as reinventa, voc precisa sentar por dias com o diretor musical e a banda. Inevitavelmente voc acaba sampleando algum, precisa pedir permisso e gastar mais dinheiro. As pessoas me dizem, "Voc poderia simplesmente ir l, tocar violo e cantar suas msicas, como Paul MacCartney", mas eu ficaria muito entediada. Grande parte da alegria dos shows est na parte da criao o teatro. Sou uma perfeccionista. Gosto de trabalho duro. Gosto de suar.

Claramente. Voc cantou "Into the Groove" enquanto pulava corda.
Eu sempre tenho que fazer alguma coisa realmente impossvel nos meus shows e esse meu momento realmente impossvel. muito difcil cantar e danar ao mesmo tempo, por isso a maioria das pessoas que danam no cantam, ou pelo menos no muito bem.

Em "I'm Going To Tell You a Secret", o documentrio da sua turn Re-Invention, voc fica toda suada como um jogador de basquete depois dos shows.
Eu venho para casa e sento em uma banheira de gelo por dez minutos. realmente doloroso quando voc entra, mas muito bom depois. Sou uma atleta. Meus tornozelos so amarrados antes dos shows e eu fao tratamentos e tenho fisioterapeutas. de anos e anos de abuso, de danar de salto alto, o que no bom para os joelhos. Todo danarino tem leses, mas simplesmente convivemos com elas. Fazemos acupuntura e terapia e continuamos.

Quando voc olha para a platia, o que te chama ateno?
s vezes s um olhar de puro entusiasmo. Eu estava em Munique outra noite e esse pai estava na primeira fila com sua filha em seus ombros e ela estava completamente arrebatada, sorrindo de orelha a orelha. Ou dois caras sem camisa, cobertos de tatuagens de imagens minhas. Esses so os caras para quem me direciono.

Quando fs em Varsvia cantaram "Parabns a Voc", voc teve um baque.
Quando pessoas na platia comeam a chorar, tem um efeito contagiante. Chorar complicado, porque quando voc chora voc no canta bem, pois aperta a garganta. Mas no curso dessa turn muitas coisas emocionais aconteceram. Obama foi eleito pouco antes de subirmos ao palco [em San Diego]. Estvamos fazendo nossas oraes antes do show e eu tinha lgrimas escorrendo pelo rosto e disse, "Sinto como se estivesse vivendo um sonho". Abaixei-me e beijei o cho. Sinto vontade de chorar falando nisso agora.

Voc disse uma vez ROLLING STONE:"Houve pocas em que pensei que se soubesse que [a fama] seria assim, no teria me esforado tanto. Se algum dia for demais, ou se eu sentir que estou sendo super-cobrada, no continuarei." Quais so suas idias sobre a fama nos dias de hoje?
Vale pena se voc conseguir entender que um meio para um fim. Meu trabalho me permitiu fazer coisas que no tm nada a ver com msica. Saber que as minhas experincias na frica mudaram a vida das pessoas para melhor, ver suas vidas mudando diante dos meus olhos... como posso no me sentir bem sobre isso? No sou sempre positiva, posso lhe assegurar. Ontem acordei do lado errado da cama. bom a entrevista ser hoje.

Irritvel?
Superirritvel. Quando sou privada de sono, no sou muito divertida. Mas, sabe, todo dia eu tenho um momento para ficar ciente, para ter um senso de conscincia sobre como minhas palavras e aes afetam as pessoas. Fao isso quando acordo de manh e quando vou dormir. "O que vou fazer do meu dia? O que fiz do meu dia?"

Na maior parte do tempo, voc fica satisfeita?
s vezes sim, s vezes eu falho terrivelmente e acho que no fao nada alm de causar destruio e caos. Mas sou um ser humano. Simplesmente tenho que cometer erros e me perdoar depois.


SEGUNDA PARTE
Questões que foram publicadas exclusivamente no site da Rolling Stone.

Sua energia no palco é incrível. Eu particularmente gostei de “Into the Groove”, que você cantou pulando corda na Sticky & Sweet Tour. Como você se mantém em tão boa forma?
Faço dois tipos de exercício. Faço um para os dias de show, que realmente deixa meu corpo aquecido e preparado, e faço exercícios em dias de folga, que incluem tudo. O tipo de treinamento que eu faço incorpora tudo, de balé a pilates a corrida de revezamento, pular corda, pular em trampolins, ginástica... usando todos os grupos de músculos que uso para fazer o show. Manter a minha resistência cardiovascular é o mais importante. No início da última turnê eu estava andando de patins. Aí acabei tirando os patins, porque eu ficava voando da passarela e batendo nas espumas de proteção.

Você chora com freqüência no palco?
[Na Sticky & Sweet Tour] tem um momento logo antes de eu cantar “You Must Love Me,” que é uma canção tão triste, num momento em que não estou presa a nenhum vídeo sincronizado, quando aproveito para conversar com a platéia. Nessa etapa da turnê eu chorei quando estava fazendo um discurso sobre os dois homens que trabalhavam para a empresa de andaimes que estava construindo meu palco em Marseille [que morreram em um desabamento]. Chorei quando fiquei sabendo que Michael Jackson tinha morrido.

Você e Michael nasceram no mesmo mês, agosto de 1958. Como era testemunhar uma criança de sua idade fazer o que ele fazia?
Eu era loucamente apaixonada por ele, totalmente fissurada. Ele era alucinantemente talentoso. As suas canções não eram infantis de jeito nenhum.

Quando você o conheceu?
O conheci no início dos anos 80. Quando comecei a trabalhar com meu empresário, Freddy DeMann, que na época estava empresariando o Michael Jackson. O vi tocar no Madson Square Garden e fiquei alucinada. Ele era perfeito. Houve uma festa no Helmsley Palace Hotel. Ele estava muito tímido, mas foi uma emoção para mim.

Você tinha ciúmes dele?
No bom sentido, eu gostaria de ter escrito “Billie Jean” e “Wanna Be Startin’ Something.” Que canção eu não adorava?

Dez anos depois houve boatos de vocês gravando juntos e você foi ao Oscar com ele.
Houve um período em que saímos juntos. Ele queria trabalhar comigo, acho que ele queria me conhecer e eu queria o mesmo. Quando você escreve com alguém, é uma experiência estranha, você se sente vulnerável e tímido. Quando trabalhei com Justin Timberlake me senti assim. Escrever canções em parceira é uma experiência muito íntima, como viver uma grande pressão. “Na sua marca, prepare-se, crie!” Você precisa superar esses obstáculos, que são “quero impressionar esta pessoa, mas será que vão pensar que minhas idéias são estúpidas? E se as idéias deles forem estúpidas? Posso ser honesta com eles? Será que vão se ofender? Você acaba conversando e tagarelando, socializando, e precisa fazer isso para chegar ao nível seguinte, ser criativo. Então era isso que estávamos fazendo: assistindo filmes, jantando juntos, saindo, indo ao Oscar, sendo tolos, vendo se podíamos trabalhar. Ele relaxou. Tirou seus óculos escuros, bebeu uma taça de vinho, fiz ele rir.

Você é a única outra entertainer no mundo que pode falar sobre sobreviver a esse nível de escrutínio. Por que isso o destruiu?
Tudo que tenho são minhas opiniões, eu não era muito próxima dele. É bom ter uma boa infância e um senso de si mesmo no mundo antes que as pessoas comecem a te falar o que elas acham que você é. Onde você pode cometer erros e ter um senso de inocência. Isso te dá um senso de confiança. Acho que ele não começou assim. Será que ele tinha algum senso de si mesmo fora do mundo de adoração e fama? É difícil sobreviver assim. Acho que se sentiu inseguro com a atenção que ganhou, e tinha uma relação de amor e ódio com seu trabalho. Não parecia ter nenhum amigo íntimo. E na última década todo mundo o abandonou, ou o taxou de louco. As pessoas falaram tantas coisas a meu respeito que não são verdade, e eu nunca pensei na possibilidade de que as acusações contra ele pudessem ser verdade. Mas ele pareceu não ter jeito para lidar com isso, pública ou privadamente, e isso pode te destruir. Quando ele morreu, todos estavam falando de quão genial ele era, mas é importante apreciar as coisas antes de perdê-las. É uma grande tragédia.

A Britney Spears foi exibida em um video durante “Human Nature” no seu show Sticky & Sweet. Ela aparecia presa em um elevador e começava a enlouquecer. É assim que você faz analogia ao que aconteceu com a carreira dela?
Sim. Aquilo não explicou o que eu penso? “Não sou sua puta, não jogue sua merda em mim.” Só acho que as pessoas deveriam cuidar de suas vidas e a deixar crescer. Acho que todo mundo perde a cabeça uma vez ou outra, e ela, como Michael Jackson, não teve uma infância de fato, então há alguns problemas inerentes nesse quadro. Não sei o quão forte foi o surto dela. Não se pode acreditar em tudo que se lê.

Você já falou sobre a música ser um instrumento para transcender o sofrimento. Quando foi que você percebeu pela primeira vez que a música tem poder de cura?
Bem, todo mundo sabe que a música pode te levantar, te transportar e te salvar e mesmo que você não esteja ligado ou consciente disso, está acontecendo. Não conheço ninguém que ainda não tenha dito “essa canção salvou minha vida,” “essa canção me fez sobreviver a um verão,” “essa canção me fez sobreviver a um rompimento.”

Desde o começo você foi descrita como um sucesso passageiro. Em que ponto você foi capaz de usar essas opiniões ridículas como motivação? Pensei que o momento crucial talvez tenha sido quando as fotos nua apareceram na Playboy e na Penthouse e você notoriamente disse “não tenho vergonha.”
Foi algo que eu fiz que foi totalmente tirado do contexto, já que as fotos foram feitas quando eu estava trabalhando como modelo para aulas de fotografia. Simplesmente pareceu muito injusto. Alguém estava obviamente tirando vantagem do fato de eu ter ficado famosa e vendeu as fotos. Foi assim que ganhei a vida quando cheguei à Nova York. Trabalhava como modelo para aulas de arte: pintura, fotografia, desenho. Eu era dançarina, por isso podia ficar na mesma pose por um longo tempo, e era possível ver os músculos em meu corpo. É um trabalho perfeitamente respeitável. Todo mundo tentou fazer eu me sentir envergonhada e pareceu simplesmente absurdo. Não vou dizer que, daquele momento em diante, nenhuma das coisas que as pessoas falaram a meu respeito me incomodou, mas eu fui capaz de usá-las como um trampolim para, como você diz, me motivar. Tem o efeito oposto. Se você disser que eu não posso fazer, eu vou fazer. É como qualquer coisa na vida. Quanto mais resistência tivermos, quanto maior o peso, maiores ficam nosso músculos. É possivelmente essa a razão de eu ainda ter uma carreira. Em toda a minha carreira tenho encontrado resistência.

Você acha que algumas das declarações que você deu, ou as coisas provocativas que fez, interferiram na qualidade de sua música?
Possivelmente, mas tudo aconteceu como deveria ter acontecido. Sou a soma total de tudo o que disse e fiz. Lembro-me de quando estava fazendo meu documentário I Am Because We Are, e o inscrevi na competição do [festival de cinema] Sundance, uma mulher me disse “você precisa decidir se quer ser uma artista ou uma ativista.” Eu disse “por que não posso ser as duas coisas? É assim que sempre me senti.

Em 1989 ninguém disse que você não podia dançar e cantar na frente de cruzes queimando no vídeo de “Like a Prayer”?
Na verdade, nem tantas pessoas assim estavam contra isso. Ficaram depois, obviamente, mas não me importo. Algumas vezes eu simplesmente me mantive firme. Acho que a fragmentação religiosa, ou fanáticos que alegam fazer coisas em nome de Deus, mas na verdade trazem dor para a vida das pessoas, é uma coisa contra a qual é preciso se manter firme, e senti que isso era parte do que eu estava fazendo. E quando apresentei “Live To Tell” em uma cruz [na Confessions Tour] eu estava sustentando Jesus, fazendo uma homenagem à sua mensagem, que é amar ao próximo como a ti mesmo, tratar as pessoas com dignidade. Os cristãos não gostaram muito disso.

Quem você consideraria um gênio musical? Como você define genialidade?
Genialidade pode significar tantas coisas diferentes. Pode ser sobre poesia ou a melodia, ou o timbre da voz quando alcança uma certa nota. Seja Cole Porter, Elvis Costello, Joe Henry, Stevie Wonder, Cat Stevens, David Bowie, Lou Reed, Crissie Hynde, Joni Mitchell, Iggy Pop, Elton John, John Lennon ou Chris Martin.

Você cantou “Imagine” em sua Re-invention Tour. Onde você estava quando John Lennon foi assassinado?
Estava na verdade na região do Upper East Side, em Nova York. Lembro-me de sair do metrô na Rua 72 umas duas horas depois de ter acontecid. Havia multidões e carros de polícia, foi louco, todo mundo ficou devastado. A violência desse caso foi particularmente perturbadora, isso pode te deixar realmente paranóico. O acidente de carro da Princesa Diana e o acontecimento trágico ocorrido com Michael Jackson, simplesmente te fazem parar. Toda vez que eu cantava “Imagine” eu sempre podia ver que as primeiras filas iam chorar. É algo que eleva. John Lennon podia despertar isso.

Você consegue ligar certas experiências a certos álbuns que fez?
Há tantas pessoas, artistas e filósofos inspiradores. Sou inspirada por pessoas que enxergam longe, como Martin Luther King, Al Gore e Ghandi. Tenho heróis mais obscuros, como Frida Kahlo, Marta Graham e Eleanor Roosevelt. Para o álbum "American Life" eu posso dizer Micheal Moore e Che Guevara. Sempre fui inspirada por pessoas que não têm medo de expressar suas opiniões e falam sobre política sexual e provocação e o que está certo e o que está errado, o que é correto e o que não é um jeito correto de um homem ou uma mulher se comportar, jogando com essas fronteiras. É obvio para mim que se eu tivesse sido um homem e tivesse feito muitas das coisas que fiz, não teria tido toda aquela atenção voltada a mim. Essa realidade não me escapou.

Algumas de suas melhores canções – “Live To Tell”, “Like a Prayer”, “Cherish” – são colaborações com o compositor/produtor Patrick Leonard. Por que esse relacionamento foi tão bem sucedido?
Ambos somos do meio-oeste e no fundo dos nossos corações, ambos somos nerds. Ele é melancólico e um músico clássico treinado, com um incrível senso de melodia. Simplesmente nos demos bem desde o começo. Nós sempre inventamos alguma coisa interessante. Normalmente não escrevemos canções frívolas, embora tenhamos feito isso, também. Há algo mágico em nossa parceria.

De uma perspectiva lírica, quais são seus versos favoritos que escreveu ao longo dos anos?
Gosto das letras de canções que não são muito populares. “Miles Away” e “Devil Wouldn’t Recognize You”. [Canta] "I'll be the garden, you’ll be the snake, all of my fruit is yours to take, better the devil that you know, your love will surely grow [Eu serei o jardim, você será a serpente, todas as minhas frutas são suas para pegar, melhor o diabo conhecido, seu amor certamente crescerá]”. E eu amo “Paradise (Not For Me)”. [Canta] "I can't remember when I was young, I can't explain if it was wrong [Não me lembro de quando era jovem, não consigo explicar se aquilo estava errado]".

Quão importantes são os hits para você?
Bem… é importante, não vou mentir. Quero que minha música seja acessível e alcance pessoas do mundo todo.

Quem te faz ouvir música?
Ouço música o tempo todo. Tenho muitos amigos que são DJs, recebo material de caçadores de talento, meus empresários. Ou eu vou a um clube noturno ou ouço rádio. As pessoas sempre trazem músicas para fazer exercícios e eu procuro no iTunes toda terça-feira. Um de meus motoristas em Nova York trabalha meio-período como DJ, outro tem um gosto incrível para música. Eles estão sempre tocando coisas para mim. Não vivo minha vida em uma bolha.

Sua filha mais velha, Lourdes, apresenta novas músicas a você?
Ela me fez ouvir os Ting Tings. Há uma banda que ela ama chamada Disco Bitch. Ela curte My Chemical Romance e já passou da fase dos Jonas Brothers. Ela adora Lady Gaga, Ciara, Rihana, T.I. e Justin. Vive com o iPod nos ouvidos.

Ela faz críticas a você?
Ah, sim. Meus shows, minha música, definitivamente. Ela é brutalmente honesta, não só comigo, mas com todo mundo, sobre o que você está vestindo, com quem está namorando, a música que ouve, cada escolha que você faz. Ela usa os mesmos tamanhos que eu agora, então rouba minhas roupas, meus sapatos, está constantemente em seu armário. E está trabalhou no último show da turnê. Hoje nos sentimos mais como amigas e brigamos a cada minuto. Uma relação normal de mãe e filha, passando pela puberdade.

É incomum para você confrontar opiniões tão honestas? Imagino que haja um monte de pessoas pisando em ovos na sua presença.
Acho que sei julgar muito bem quem está me paparicando. Gostaria de pensar que tenho amigos que me dizem a verdade e pessoas com quem eu trabalho que me dizem coisas que não quero ouvir. Tenho essas pessoas em minha vida e me sinto sortuda em tê-las.

Qual é o papel de Lourdes na turnê?
Ela veste os dançarinos nos bastidores. Ela realmente gosta de cabelo e maquiagem, então faz muitos experimentos. Ela é muito talentosa. Poderia sem dúvida desenhar sua própria linha de roupas, tem um grande estilo. Todos perguntam a ela o que acha das roupas que vestem. A ela, não a mim.

O que você considera relíquias?
Tenho toneladas e toneladas de blocos de notas nos quais escrevi e desenhei ao longo das décadas. As outras coisas são mais maternais: o primeiro par de sapatos que minha filha usou, seu primeiro maço de cabelo.

É um sentimento paradoxal se separar da Warner Bros. após passar toda sua carreira lá?
Não sei. O mercado de discos como o conhecemos não existe mais. A maneira que as pessoas fazem, promovem e vendem música é tão diferente agora. É simplesmente uma evolução natural. Em muitos sentidos é melhor, porque as crianças têm a chance agora de se colocar lá sem o atravessador e toda a burocracia e besteira administrativa que você tem que agüentar. Por outro lado, não há ninguém assessorando essas crianças. Não sei qual é a solução. Tenho certeza que tudo voltará ao normal novamente. Só parece que é hora de seguir em frente. Estou bem com isso.

No Rock and Roll Hall of Fame você resumiu seu discurso dizendo “tudo leva à música”. Você pensa no seu legado ou como será lembrada daqui a 100 anos?
Não necessariamente. Mas quando faço meus shows e vejo como a música transporta as pessoas, o que tenho consciência mais do que qualquer coisa quando vejo as pessoas chorando, ou estáticas, é de como a música afeta as pessoas e o poder que tem, sobre todas as outras formas de arte. Sou tão tocada e movida pela música de outras pessoas – sou um ser humano como todo mundo. Todos devemos partilhar essa mesma conexão, então sou privilegiada e abençoada por ser um canal para a música. No final das contas, vão pensar sobre como eu me joguei em busca dos meus sapatos no VMAs ou que eu estava nua nos jornais, ou vão lembrar de “Live To Tell”? Eu acho que, no final das contas, as pessoas lembram da autenticidade. Elas lembram do que é verdadeiro, e o resto perde a força. Vão lembrar do que vêm do coração de uma pessoa.