Revista 'Bizz' - 1994


Bizz: A velhice te amedronta? Você tem algum modelo pessoal de velhice agora que você está se aproximando dos 40 anos?
Madonna: Eu vejo a velhice como um desafio. Mas, hey, eu ainda não cheguei aos 40, ainda tenho 5 anos pela frente. Na verdade eu não penso sobre isso. Por que eu deveria? Não estou preocupada com isso. Sou uma artista. Existe uma idade limite para a criatividade?

Bizz: Para criatividade não, mas para alguém ser símbolo sexual sim.
Madonna: Mas isso não é tudo que sou. Não existe limite para o que eu possa fazer, falar e criar. Posso escrever canções até os 100 anos se essa for a minha escolha.

Bizz: Muitos artistas têm problemas com o envelhecimento.
Madonna: Muitos artistas também têm problemas com a bebida. Existem exceções para todas as regras.

Bizz: Existe alguém que você admira pela maneira de estar envelhecendo?
Madonna: Katherine Hepburn. Existem também pessoas que não são conhecidas, gente do cotidiano. A inspiração está em toda parte.

Bizz: Madonna é assundo freqüente entre os círculos feministas. Você acompanha essas discussões?
Madonna: Sim, mas de longe. Eu não leio tudo, mas acompanho o que as pessoas dizem. Nunca li, por exemplo, o trabalho completo de Camille Paglia. Falando francamente, não acho que ela é uma boa escritora. Mas eu sei que ela escreve e fala sobre mim o tempo todo.

Bizz: Você se vê propriamente representada nessas discussões?
Madonna: Absoutamente não.

Bizz: Mas você se considera uma feminista, não?
Madonna: Eu diria que estou mais interessada nos direitos humanos no que no direito da mulher. As mulheres apenas se enquadram nessa categoria. Prefiro dizer que sou humanista, e não feminista. De qualquer maneira, essas opiniões são conflitantes. Algumas pessoas acham que sou um bom modelo para as mulheres porque sou a favor da liberdade de expressão. Acho que as mulheres devem ser fortes, ter opiniões próprias e direitos iguais.

Bizz: Hoje em dia, normalmente, os artistas não têm um ponto de vista tão forte.
Madonna: Na cultura POP, não é popular ter um ponto de vista próprio. Mas acho que você não pode servir de exemplo ou de inspiração se você não tem um ponto de vista próprio.

Bizz: Você acha que a sua influência dentro dos Estados Unidos é grande o suficiente para mudar o curso de desenvolvimento do país?
Madonna: Eu acho que isso já aconteceu no passado. Este é um processo lento e crescente que pouquíssimas pessoas conseguem admitir

Bizz: Você é cantora, compositora, dançarina e atriz. Agora diz também que quer dirigir filmes. Você não está fora de foco, descentralizada?
Madonna: Nâo, porque o que está no meu foco é o que estou fazendo determinado momento. Existem vários diretores que também escrevem seus próprios roteiros e produzem seus próprios filmes. Não acho que um artista é bom quando se dedica apenas a uma coisa. Se você tem um ponto de vista, tem convicções e sabe exatamente o que quer dizer, tudo o que você faz ajuda no seu próximo passo.

Bizz: O que se pode esperar de Madonna como diretora de cinema? O que teria sido diferente se você tivesse dirigido alguns dos filmes que estrelou ao longo de sua carreira?
Madonna: Eu não poderia te contar. Espere o meu primeiro filme. Quanto aos outros filmes, provavelmente eu não teria morrido no fim de nenhum deles. Morro muito nos meus filmes.

Bizz: Muitas pessoas temem você e a sua força de vontade. A morte não seria uma maneira de simular o seu fim?
Madonna: É... não é interessante isso? Na verdade, em princípio as minhas mortes não estavam nos roteiros. Os diretores decidiram mudar o final dos filmes depois. Essa é uma prerrogativa dos diretores.

Bizz: Atualmente, como é a sua relação com Abel Ferrara (diretor de "Olhos de Serpente")?
Madonna: Mmmmmmh (rindo). É espinhenta. Ainda o considero um diretor muito talentoso, mas ele tem um obsessão por violência contra as mulheres. Acho que sempre fará filmes com finais trágicos. É da natureza dele...

Bizz: Falando de 'Bedtime Stories', a segunda metade do disco tem várias músicas com um certo clima estranho, irreal, como a faixa-titulo.
Madonna: Essas são as faixas produzidas por Nellee Hooper. E dá para entender. Queria trabalhar com vários produtores de rhythm and blues, ter maior variedade de sons, mas não gostaria que o disco soasse como um ábum feito por diversos produtores. Quando estava no final de todo o processo- Nellee Hooper foi o último produtor com quem trabalhei- decidi retrabalhar algumas músicas para dar continuidade ao disco. Sempre existiu um entrelaçamento de idéias e pensamentos de integridade do disco.

Bizz: Como foi trabalhar com Bjork?
Madonna: Nunca nos encontramos, apenas nos falamos por telefone. Foi Nellee quem nos aproximou. Eles estavam trabalhando em Londres, enquanto eu trabalhava com Babyface. Eles viviam me mandando fitas e idéias. Quando me encontrei com Nellee, Bjork estava em turnê. Pegamos uma idéia dela meio crua, uma música que ela canta livremente- sem divisão de versos- e dei uma forma a ela. Algum dia nos encontraremos.

Bizz: Agora que o disco está pronto, mais uma vez, haverá críticas inustas e uma negatividade esmagadora contra você. Como você suporta isso tudo?
Madonna: Com senso de humor. Eu sei de onde vem tudo isso e não levo a nível pessoal. As pessoas sentem-se desonfortáveis com quem é sucesso por um longo período de tempo. Especialmente quando se trata de uma mulher. Eu sou uma pessoa muito sincera. Tenho opiniões e isso é uma coisa que incomoda. É uma maneira de dizer: "Vá embora. Gostaria que a sua carreira estivesse acabada". É uma maneira de me calar, uma tentativa de me intimidar. E isso também vende revistas.

Bizz: Você se considera uma pessoa vulnerável?
Madonna: Absolutamente. Se você ler as letras das minhas músicas, você perceberá.

Bizz: E a frase que você diz "estou sempre inclinada para a tristeza, a solidão nunca foi minha desconhecida". Isto é você ou uma persona inventada?
Madonna: Mas todas as minhas personas são parte de mim. Mesmo que você diga que não sou eu realmente, que é um escudo que estou segurando, é uma expressão que vem de mim.

Bizz: Quais são as últimas novidades do seu selo Maverick?
Madonna: Acabamos de assinar com uma banda de Los Angeles, The Deaf Tones e estamos tentando os Bad Brains.

Bizz: Você tentou contratar o Hole uma vez, por que não deu certo?
Madonna: Isso foi há muito tempo atrás, quando a banda ainda estava em um selo independente e procurava um contrato. Eles entraram em contato com diversas gravadoras- e entre Maverick e Geffen - optaram pela segunda que já era gravadora do Nirvana.

Bizz: Você chegou a se encontrar com a Courtney Love na época?
Madonna: Eu vi um show dela uma vez e falei com ela por telefone muitas vezes. Nunca nos falamos pessoalmente. Ela me telefonava freqüentemente para me pedir conselhos. Fiquei surpresa quando li que ela me via como um vampiro que tentava sugar o seu sangue. Acho que ela é meio maluca. Ela ligava no meio da noite e chorava no meu ombro dizendo que sua banda era melhor do que o Nirvana. E era muito competitiva com o marido, eu tentava dar conselhos a ela.

Bizz: Norman Mailer, disse que você é a artista que melhor sabe viver. Qual a sua opinião a respeito?
Madonna: Estou lisonjeada que ele ache isso. Obrigada Norman... Esse é o meu comentário...

Bizz: Ele também disse que Mussolini se sentiria muito confortável em seu apartamento.
Madonna: Ele pensa que estava me insultando, mas na verdade isso é um elogio para mim. Sou apaixonada por desenhos fascistas e também aprecio a arquitetura deles.

Bizz: Meu Deus... uma declaração como esta vinda de você vai deixar algumas cidades alemãs e italianas completamente mal acostumadas...
Madonna: Não, no México também existem belíssimos monumentos fascistas...

Bizz: Como você consegue separar a construção dos seus significados?
Madonna: Nunca poderia ver uma coisa dessas sem sentir o que elas estão querendo dizer. Existe muita arrogância nelas. Sou fascinada por isso e por diversas coisas que trazem conotação negativa, como violência ou brutalidade. Mas também me fascino por romance e por sentimentos, que são coisas de natureza totalmente opostas. É melhor tirar um pouco de tudo.