Jornal 'Folha de Sao.Paulo'
Por Erika Palomino



Loura, com raízes pretas, piercing e unha pintada de vinho, Madonna dá o ar da graça. Em Los Angeles, falou anteontem à noite a 15 jornalistas internacionais sobre seu novo disco "Bedtime Stories, e sobre essa sua nova maneira de ver a vida -espiritualizada, romântica, compenetrada, algo solitária e até magoada.Madonna agora lê poesia, troca a dance music por "suas raízes" rhythm & blues e tira o corpo fora das polêmicas sexuais que sempre distraíram a atenção de sua carreira: "Estou em outro estado de espírito." Madonna viu este seu décimo álbum deixar os dez primeiros lugares da parada norte-americana.

Folha- Que história você está tentando contar com seu álbum?
Madonna-A maioria das canções é sobre autodescobertas, aprender a gostar de você mesmo, suas fraquezas. Muitas das canções são de natureza romântica.

Folha- O material de impressa descreve "Bedtime Stories" como um confessionário musical.
Madonna- Estas não são as minhas palavras.

Folha- Quais seriam as suas palavras então?
Madonna-Todas as canções refletem alguma coisa em minha vida, alguma experiência que eu tive ou que estou tendo. As músicas são reflexo do meu atual estado de espírito.

Folha- Quais seriam suas influências?
Madonna- "Inside of Me" é dedicada a minha mãe. Outra, "Human Nature", é a minha resposta para a mídia, para a imprensa que me critica por lidar com assuntos que são tabus e que tenta me punir por isso. Estou dizendo na música que dou minhas costas a eles. Não vou pedir desculpas.

Folha- Você diz em "Take a Bow" que "o mundo é um grande palco, todo mundo tem um papel nele". Qual é o seu papel?
Madonna- Bem, eu estou citando Shakespeare nesta frase. Acredito nisso. A arte imita a vida e a vida imita a arte. A vida é uma peça e cada um tem seu papel. Não é um pensamento original. Tenho certeza que você já ouviu isso antes.

Folha- Se você pudesse se tornar anônima por um dia, onde você iria?
Madonna- (pensa por 25 segundos) Provavelmente iria a um clube noturno.

Folha- Você tem saído para dançar ultimamente?
Madonna- Não. Quer dizer, eu tento. Mas a cada vez que eu piso numa pista de dança abre-se um círculo à minha volta. Depois fica menor, mais apertado e eu tenho que ir embora.

Folha- Está em produção uma minissérie sobre o início de sua carreira. O que você acha sobre essa minissérie?
Madonna- Não há nada que eu possa fazer. Lavo minha mãos. Qualquer coisa que eu faça vai atrair mais atenção sobre mim. E as pessoas têm escrito biografias não autorizadas sobre mim há algum tempo. Certamente não gosto disso ou me divirto com elas, mas eu tenho que me concentrar nas coisas importantes da minha vida.

Folha- Você não se importa com o modo com que retratam você?
Madonna- Não estou interessada. Eu não daria este crédito à eles. Eles não merecem.

Folha- No encarte do álbum você credita Shelp Pettibone -um dos produtores que mais trabalhou com Madonna- "por sua compreensão".
Madonna- Exatamente. Comecei a trabalhar neste disco com Shep. Mas eu descobri que estávamos fazendo o mesmo tipo de música de novo. Eu estava mais interessada em voltar às minhas raízes, que são o rhythm & blues.

Folha- Por que trabalhar com pessoas tão jovens? Dallas Austin, Babyface, Dave Hall...
Madonna- Porque eles são bons, não importa a idade. em minha opinião, eles são os melhores em rhythm & blues no momento.

Folha- Você é vista como um símbolo sexual...
Madonna- Eu não tenho controle sobre que imagem as pessoas vão fazer de mim. No álbum "Erotica", há muitas canções que não são sobre sexo, mas as pessoas decidiram olhar para o disco e achar que é só isso. Há muitas canções de amor, muitas músicas românticas. Desta vez, eu não estou explorando "Bedtime Stories" de maneira erótica nem publicando um livro sobre isso. Eu diria que estou em outro clima. O que não quer dizer que eu não esteja mais interessada em sexo, sexualidade ou erotismo.

Folha- Em "Human Nature" você diz: "oops, eu não sabia que não podia falar de sexo". É algum tipo de arrependimento sobre algo que você tenha dito ou feito no passado?
Madonna- Não. É o que eu digo na música: "I'm not sorry" (eu não lamento).

Folha- Como você avalia essas músicas do passado?
Madonna- Eu não faço isso. Eu vivo do presente.

Folha- Em suas canções e entrevistas recentes, você tem citado alguns autores como Shakespeare ou Proust (numa estrofe de "Forbidden Love"), Walt Whitman (em "Sanctuary"), Dorothy Parker e Edna St. Vincent Millay. Você costuma ler poesia? Do que você gosta? Esse é seu lado B?
Madonna- Bem, há muitas perguntas aí. Sim, eu leio poesia. No momento, estou adorando Pablo Neruda, que é um grande poeta, inacreditável. Leio muito Whitman, Anne Sexton.

Folha- Como você lida com o fato de ser a mulher mais famosa do mundo?
Madonna- Yeak (risos) Eu não gosto. Dê esse título a outra pessoa.

Folha- Quem? A princesa Diana?
Madonna- Exatamente. Acho que ela também não vai gostar.

Folha- Você conseguiu tudo na vida? Você é feliz? O que você mais espera?
Madonna- Primeiro eu não consegui tudo na vida. Ainda há tanto para aprender.

Folha- Qual o seu segredo para a sobrevivência?
Madonna- Respeitar a si mesmo. E ter senso de humor (risos).

Folha- Por que você escreveu "Love Tried To Welcome Me"?
Madonna- Eu estava falando de um período específico em minha vida, quando o amor chegava até a mim, mas eu não estava preparada para recebê-lo. Meu coração é um caçador solitário. Na essência, o de todo mundo é. Há uma certa tristeza existencial em cada um de nós. Você pode encontrar alguém com quem dividir sua vida ou amigos que o compreendam. Mas no fundo você está sozinho.

Folha- Tem alguma pergunta que nunca fizeram para você?
Madonna- Sim: "Você está com fome?". Sim. Eu estou.

Folha- Qual a diferença da Madonna que vemos no palco da Madonna que vemos como pessoa comum?
Madonna- Muitas. Quando um artista vai para o palco, ele precisa ficar maior do que a vida. Assim é a arte. Você é uma pessoa de carne e osso que precisa ter energia para entreter milhares de pessoas. Por isso, você tem que se "magnificar" centenas de vezes. Assim, a diferença entre a pessoa que está aqui sentada e a pessoa que está no palco é: "Esta sou eu, eu sou magnífica".

Folha- Qual é sua mensagem para as pessoas? É sexo, poesia, espiritualidade?
Madonna- O que você acha? (pergunta ao repórter, colombiano)

Repórter - Para mim? Poesia. E para você?
Madonna- Sexo não é mensagem. Todo mundo tem uma sexualidade, todo mundo tem uma diversão. Minha mensagem é: seja verdadeiro para você mesmo. Isso envolve todas as outras coisas. Há poesia no lixo da rua, na sexualidade, em ser bobo, em se divertir, em religião, na tristeza...

Folha- As pessoas amam ou odeiam você...
Madonna- É uma linha fina entre o amor e ódio.

Folha- Mas você quer ser amada?
Madonna- Os dois são extremos. São emoções que são reações por sermos tocados por outra pessoa. Se você odeia ou ama alguém, é por que você foi tocado, atingido de alguma maneira.

Folha- O que toda essa poesia e todo esse romantismo fez com "Dita", a sua persona de "dominatrix" de "Erotica" e de "Sex"?
Madonna- Ainda está lá. Ela ainda está aqui. Em algumas canções de "Bedtime Stories", como "Secret", "Sanctuary" há algo de religioso, de espiritual.

Folha- Há algo de novo nesse terreno para você?
Madonna- Acho que eu sempre fui muito espiritualizada. Fui educada dentro do catolicismo e estudei muito sobre diferentes religiões -budismo, hinduísmo, etc.-, e eu estou tentando ver o que funciona para mim espiritualmente. Acho que todas as religiões têm algo para ensinar. Quanto mais velha, mais sábia eu fico, mais eu penso e reflito sobre essas coisas. Acho que eu estou mais próxima de minha idéia do que são minha espiritualidade e minha religião pessoal.

Folha- Há alguma coisa que você queira e não possa conseguir?
Madonna- Não.

Folha- Você já transou ouvindo alguma de suas músicas?
Madonna- Não, acho que eu iria ficar distraída (risos).

Folha- E se você tivesse que fazer isso, que música seria?
Madonna- "Jusfify My Love".

Folha- Quem você gostaria de ver cantando "Justify My Love" num bar vagabundo?
Madonna- Bill Clinton. Num dueto com Al Gore. Com um boá de penas no pescoço.

Folha- Que pergunta você nunca mais quer responder?
Madonna- "Você não acha que já se expôs demais?"

Folha- Você se interessa por política?
Madonna- Eu faço política. Mesmo que eu não queira. Desde que você tenha um ponto de vista você está sendo político e o meu trabalho tem um ponto de vista bastante específico.

Folha- Em Paris você desfilou para o estilista Jean Paul Gaultier. Vocês vão trabalhar juntos novamente?
Madonna- Amo Jean Paul Gaultier, antes de tudo como ser humano. Com certeza vamos trabalhar juntos.

Folha- Você se importa com a moda?
Madonna- Eu amo moda. Eu adoro roupas. É um ótimo modo de se expressar. O que vestimos é reflexo do que nós somos. E é divertido brincar com a moda. Mas eu não levo muito à sério.