|
Revista 'The Face' - 2000
Miranda: Music parece um álbum muito positivo.
Madonna: Mais ou menos... Algumas
músicas tem um pouco de tristeza. Esse álbum,
mais do que qualquer outro, cobre todas as áreas da
minha vida. Deixei de lado a "festa" do Ray Of Light.
Mas eu tinha acabado de ter um bebê, então meu
humor estava completo, eu estava maravilhada e intrigada com
os aspectos místicos da vida e cheia de idéias.
Você Poderia conectar Ray Of Light com Like a Prayer.
Com você procurando por espiritualidade, procurando
um significado, procurando... Deus. Não que eu não
tenha mais nada o que procurar. Espiritualidade ainda é
importante para mim, mas não me sinto mais inspirada
a escrever músicas sobre isso. Quer dizer, vou a igrejas:
anglicanas, católicas, vou a sinagogas, tomo parte
em todas as religiões. No fundo, sou católica
porque é como eu fui criada, mas o judaísmo
me intriga tanto quanto o catolicismo.
Miranda: Entre esses dois álbuns que você
citou, houve longos anos "perdidos". Você
parecia estar dando tiros para todos os lados.
Madonna: Claro. Foi uma combinação de
várias coisas. Meu casamento acabou e fiquei incrivelmente
cínica quanto ao amor por bastante tempo, aí
minha fama aumentou e eu tinha uma relação de
amor e ódio com isso, me sentia trapaceada por ela
e tinha raiva. Eu sentia toda a variedade de emoções
possíveis e isso se refletia na minha criatividade.
Miranda: Como estava seu humor quando você fez
Music?
Madonna: Para dizer a verdade, não sei. Eu me
sinto como... Um animal que está pronto para ser libertado
da jaula (risos). Tenho vivido uma vida doméstica bem
pacata... E sinto falta de alguma coisas. Por exemplo, de
me apresentar, de dançar, de estar na estrada, esse
tipo de energia. Uma parte do álbum é sobre
isso. E a outra é sobre a amor. Então, tem o
lado frívolo da minha vida e o lado não-frívolo,
espero. Geralmente, faço albuns que são ou uma
coisa ou outra e acho que este tem as duas.
Miranda: Você senta em casa e escreve músicas
e depois as leva para o estúdio ou você trabalha
quando já está lá?
Madonna: Tenho um caderno de
cabeceira. Jogo coisas nele - sonhos, poemas ou coisas que
li Ou passagens de diários, recortes de jornal, algo
de que eu queira me lembrar. Então, guardo esse rascunho
e muitas vezes volto a ele e tiro uma idéia para fazer
uma canção. Mas, geralmente, é música
que me põe pensando de uma certa maneira ou sentindo
alguma coisa e eu confio profundamente nas pessoas que colaboram
comigo para me inspirar para as letras. Acredite se quiser:
meu ponto máximo de criatividade é quando estou
na frente do microfone, sob pressão.
Miranda: "Impressive Instant" parece ser
sobre quando você está numa casa noturna e vê
alguém e pensa...
Madonna: "Vou passar o resto da minha vida com
ele!" É por isso que tem esse nome ("Instante
Impressionante") - é aquele momento em que tudo
fica "uou" (bate palmas)! Claro que ajuda se você
tiver bebido um pouco.
Miranda: "What It Feels Like For A Girl":
quem fala no começo?
Madonna: Charlote Gainsbourg )filha de Serge Gainsbourg,
cineasta e compositor francês). Já viu um filme
chamada "The Clement Garden", no qual ela tem um
caso com o irmão? Numa cena, ela diz para ele: "Não
há problemas em garotas se vestirem como garotos, vestir
camisas e botas e blablablá. Mas um garoto vestir-se
de garota é degradante, porque você acha que
ser uma garota é degradante-mas secretamente você
adoraria saber como é". Pensei: "Meu Deus,
isso é genial!".
Miranda: Essa música é para sua filha?
Madonna: Um pouco. É para ela, mas também
sou eu falando comigo mesma. É sobre eu
descobrindo que ser alguém que conquistou muitas coisas
nem sempre é vantajoso quando se trata de relações
e de lidar com homens, porque eles ficam intimidados com mulheres
nessas condições. Houve tantas vezes que pensei:
"Queria que açguém tivesse dito pra mim:
"Seja grande, mas não muito, porque se não
você vai limitar as sua proporções".
Miranda: Seja grande e depois caia?
Madonna: É um jogo que as mulheres forte têm
que jogar. "Jogo" é a palavra errada, mas...
A música é uma percepção de política
dos sexos. Uma reclamação. É também
sobre comportamento feminino. Estava pensando em garotas de
propagandas e com algo de fora. Pode parecer aquiescência
púbere, mas por trás disso é totalmente
diferente. E não é um hino feminista, embora
sinta que outras mulheres possam se identificar. Na verdade,
é sobre várias coisas, mas quanto mais eu a
explico, mais ela soa trivial.
Miranda: E aí tem "I Deserve It",
"Amazing" e "Don't Tell Me", que são
sobre amor, não são?
Madonna: São. "I Deserve It" é
uma canção de amor. "Amazing" é
uma canção de... Eu te amo mas foda-se. E "Don't
Tell Me" é mais ou menso a mesma coisa. São
todas de eu te amo mas foda-se . São minhas melhores
canções. "I Deserve It" até
é uma música de amor, mas algo de solidão
nela. Sonoramente, a justaposição de violão
e som de sirene sintetizado...Para mim, essa combinação
estranha a deixa um pouco desconfortável. "Amazing"
Começa com "you took a pretty picture and you've
smashed it into bits/You took a poison arrow and you aimed
it at my heart" (Você pegou uma imagem bonitinha
e quebrou em pedaços/Você pegou uma flecha venenosa
e a apontou para meu coração"). Minha filha
anda pela casa cantando essa parte. Não sei porque
ela pegou esses versos.
Miranda: Sobre o que é essa, então?
Madonna: Bem, hhmmm, sobre o que você pensa que
ela é?
Miranda: Você é quem deveria me dizer.
Mas vou contar o que acho: é sobre pessoas a verem
como uma imagem, não como um ser humano e, se alguém
aparece e vê além disso, isso a deixa pirada.
Madonna: É...Tem a ver com quebrar uma imagem
que você tem de alguém, mas também é
uma música sobre amar alguém que você
não queria amar. Porque você sabe que esta fadado,
mas não consegue parar porque isso é incrível.
Miranda: Isso é incrível?
Madonna: Você vai descobrir o que "isso"
significa...
Miranda: Quando você acha que as pessoas vão
ouvir o disco?
Madonna: À noite. É para audição
noturna. É muito melancólico para ouvir durante
o dia. Mas você pode ouvir as duas primeiras faixas
antes de sair à noite...
Music é o primeiro álbum da cantora feito fora
dos Estados Unidos.
Miranda: O que você acha de morar na Inglaterra?
Você gosta? Ou te dá nos nervos?
Madonna: Ambos. Há dias que me sinto uma estranha
num país estranho e me desespero, sinto falta dos meus
amigos e do que se sente falta do seu país de origem.
Mas amo a idéia-tanto no trabalho quanto onde moro-de
esxplorar uma nova fronteira. Adoro me colocar em lugares
estranhos e tentar sobreviver, entender as coisas e acumular
infra-estrutura. Adora saber que poderia adivinhar uma forma
de viver em qualquer lugar.
Miranda: E, pelo menos, nós falamos a mesma
língua.
Madonna: É. Mas só porque falamos a mesma
língua não quer dizer que somos realmente tão
parecidos. Na verdade, é interessante
porque sempre se pensa na Inglaterra como um lugar reprimido
e tradicionalista, onde todo mundo tem um jeito contido e
afetado de se ralacionar com os outros. Mas, na verdade, os
americanos, conhecidos por serem tão impetuosos e diretos,
são bem puritanos, então é um paradoxo
estranho. Porque os ingleses são um bando de sacanas
sujos. Meu Deus, tudoo que vocês têm são
pessoas peladas nos jornais aqui! Não consigo me acostumar
com a garota pelada da página 3, não importa
o quanto eu tente... Sabe, estou toamndo o meu café
e abro o jornal e...argh! Quer dizer, peitos são tudo
aqui...Mesmo!
Miranda: Você ainda pensa em comprar uma casa
em Londres?
Madonna: Vou decididamente comprar uma casa aqui, mas
não consigo achar uma perfeita pra mim. Não
consigo acreditar como uma propriedade é cara aqui,
e me recuso a me curvar e ser fodida por trás-e digo
isso para meu namorado. Eu poderia me convencer a comprar
uma casa por 6 milhões de dólares nos Estadou
Unidos, mas é ultrajante, e eu sou muito classe média
para jogar o meu suado dinheiro fora desse jeito.
Miranda: O que a decepciona em Londres?
Madonna: Bom, em parte, não gosto de morar em
casas alugadas com coisas de outras pessoas, eu sinto falta
das minhas coisas. E simplesmente e
um estilo de vida diferente. Às 6 horas todo mundo
vai para casa, ninguém trabalha nos fins de semana
e as pessoas viajam por um mês no verão. É
um estilo de vida muito antiquado. Leva muito mais tempo para
fazer qualquer coisa. Nos Estados Unidos meus empregados trabalham
24 horas por dia sem parar...
Miranda: Aqui você não pode escravizá-los...
Madonna: Exatamente. Vou sair
de férias em dois dias, mas é a segunda vez
que tiro féria na minha vida e é um conceito
alheio para mim. Amo o que faço e viajo muito a trabalho,
então sair de féria parece estranho, porque
quando eu não estou trabalhando só quero ir
para casa e dormir na minha cama. É uma mentalidade
diferente. As pessoas são muito menos orientadas para
o trabalho e ambiciosas aqui do que nos Estados Unidos.
Miranda: Mas certamente as pessoas que você encontra
devem ser ambiciosas para os padrões britânicos.
Madonna: Meio a meio. Eu encontrei alguns diletantes
e alguns bon vivants. Eu invejo essas pessoas...
Miranda: Não, você não inveja...
Madonna: Não, eu não invejo. Não
consigo me imaginar sem ser produtiva. Mas há uma apreciação
da vida aqui-em toda a Europa-que não há nos
Estados Unidos, e disso eu gosto um pouco.
Miranda: Como é um dia normal para você
aqui?
Madonna: Depende do que eu estou fazendo. Acordo todos
os dias a mesma hora por causa da minha filha. Então
eu levanto às 7horas e ela vai para a escola. Tomo
meu café e olho as garotas peladas da página
3. Daí, vou para o escritório e passo horas
na frente do computador mandando e-mails. É assim que
conduzo todos os meus negócios na Califórnia.
Aí, pratico ioga todas as manhãs, com meu professor.
Faço ouvindo música. Qualquer tipo de coisa,
um monte de ragas indianos tradicionais e ambient: Nitin Sawhney-eu
tenho todos os CDs dele. Depois, medito no fim, em silêncio.
A essa hora, minha filha já chegou da escola e almoço
com ela, aí ela tira um cochilo, e eu vou fazer minhas
coisas pelo resto do dia.
Miranda: Você tem bons amigos aqui?
Madonna: Tenho um punhado bem pequeno de bons amigos
aqui, mas sinto saudades dos meus amigos dos Estados Unidos,
porque, obviamente, eu os conheço há muito mais
tempo.
Miranda: Quem é seu amigo mais antigo?
Madonna: Uma garota chamada Debbie-eu a conheci em
Nova York, quando ela era uma ascensorista e trabalhava na
Danceteria, antes de qualquer coisa acontecer comigo. Ela
é um dos poucos amigos que me conhecem desde antes
de eu ser famosa.
Miranda: Quando você encontrou Guy foi como em
"Impressive Instant"?
Madonna: Foi. Eu tive toda uma premonição
da minha vida em fast-for-ward. Isso só havia acontecido
comigo uma vez.
Miranda: Com Sean Pean?
Madonna: (Não responde)
Miranda: É assustador?
Madonna: Não, é revigorante.
Miranda: Você contou ao Ritchie como se sentiu?
Madonna: Não na hora, de jeito nenhum. Entrei
num estado de negação porque ele morava aqui
e eu lá, e eu não estava interessada em me torturar
com um romance a distância. Mas aconteceu do mesmo jeito.
Foi daquelas
coisas...inexplicáveis, incontroláveis.
Miranda: Quando você fala que tem uma premonição
do que ia acontecer, o que quer dizer exatamente?
Madonna: É estranho não
poderia nem dizer especificamente quais foram os meus pensamentos,
foi simplesmente... Sabe quando dizem "ele virou minha
cabeça"? Minha cabeça não só
virou, ela girou ao redor do meu corpo! Em minha profissão,
conheço todos os tipos de pessoas incríveis,
fascinantes, glamourosas, sexy e intelectualizadas. E você
as encontra e pensa:"Interessante, interessante".
Mas não são muitas as que te tocam. Isso tem
muito a ver com química e timing.
Miranda: É muito empolgante isso, encontrar
alguém que faz você ficar balançada...
Madonna: Sim, louca, doida varrida.
Miranda: Onde exatamente você o encontrou pela
primeira vez?
Madonna: Eu estava almoçando
no jardim da casa do Sting e da Trudi e ele era um convidado.
No próximo domingo vai fazer dois anos que o conheci.
Eu me lembro porque era dia dos pais nos Estados Unidos e
eu tive de pedir licença para sair da mesa e ligar
para meu pai. Não tinha a mínima idéia
de que ele ia estar lá. Ele simplesmente apareceu na
cadeira ao lado da minha.
Miranda: Ele fez você rir?
Madonna: Sim, ele é muito engraçado,
muito bem humorado.
Miranda: Deve ser duro ter uma relação
tão pública.
Madonna: É, mas só é publica num
sentido. É, é um saco, mas é inevitável.
Quero dizer, ele consegue rir disso tudo e eu também.
Sabemos que o que as pessoas escrevem sobre nós está
a milhas de distância da verdade.
Miranda: O que é a verdade sobre Ritchie bater
num fã seu?
Madonna: Hmmmm... Ah, Deus, é tão chato
falar sobre isso. Nada.
Miranda: Ele simplesmente caiu em cima da mão
de Ritchie?
Madonna: Ele não bateu nele com a mão,
ele chutou. Esse cara tinha me seguido desde que eu cheguei
aqui. E é um homem, não um moleque, então
é desagradável. Todos os fãs tem ficado
cada vez mais agressivos, e ele era um dos líderes.
Eles não me deixam em paz - tocam a campainha, pedem
pizzas, assediam minha filha, param na frente do carro. Não
podemos entrar ou sair da garagem, eles tornam a vida impossível.
É irritante, todo dia, E, nesse dia em especial, chegamos
e esse cara abriu a minha porta do carro. Então Guy
teve de sair e dizer para ele como eram as coisas: "Se
você me deixar puto, vai sobrar para alguém".
E eles meio que o desafiaram. Mas, desde que isso rolou, ninguém
mais aparecu na porta da minha casa. Ele só estava
sendo um namorado protetor.
Miranda: Se você tivesse que dizer cinco qualidades
do Ritchie, quais você escolheria?
Madonna: Eu não sei se me sinto tão confortável
para falar tanto do Guy...
Miranda: Ele é muito bonito, ele é legal
com a mãe e o pai dele...
Madonna: É, essas duas...E ele me faz rir. E
ele é genial, maravilhoso, inteligente e...(pausa)
Quantas foram? Não vou falar mais se não ele
vai ficar cheio de si.
Miranda: Deve ser estranho agir naturalmente e depois
ter de voltar a ser o centro das atenções e
críticas.
Madonna: Acho que, no fim, quando
você é famoso, as pessoas gostam de deduzir você
a alguns fatores da sua personalidade. Acabei virando essa
pessoa abiciosa, que diz qualquer coisa que vier à
cabeça e que intimida. E isso é parte da minha
personalidade, mas, com certeza, não passa perto da
coisa toda.
Miranda: Você foi ao Set de Filmagem de Snatch
(novo filme de Ritchie)?
Madonna: Fui. Foi ótimo assistir o Guy dirigir.
É um ótimo afrodisíaco. Gostei dele tomando
conta de todo mundo. Mas não de uma forma óbvia,
porque é bem tranquilo. Ele toma conta, mas não
é mandão.
Miranda: Eu fico feliz que você esteja apaixonada.
Madonna: Eu também. Só levou 40 anos
para dar certo. Escreva isso.
A cantora gosta de aprender, é rápida ao observar
(ela menciona minha camiseta e um detalhe na minha pulseira),
é conhecida por consumir música nova, e voraz
no seu apetite por estímulo. Vamos esperar que o Reino
Unido dê o bastante para ela pensar. Madonna aperta
minha mãe de novo, firmemente.
Madonna: Você não me insultou.... Não
muito...
Antes de ir, ela me faz dizer cinco coisas legais sobre meu
namorado.

|