Mirwais, produtor de "American
Life", de Madonna, fala do CD
CÁSSIO STARLING CARLOS
da Folha de S.Paulo
Tal como sua música, o produtor dos
dois últimos discos de Madonna, Mirwais (pronuncia-se
"mirvai"), 42, é um híbrido. Filho
de pai suíço e mãe afegã, vive
na França desde criança. O mix se repete nas
criações. Começou com o punk dance no
grupo Taxi Girl, migrou para o folk pop no Juliette et les
Independants e se converteu à eletrônica nos
anos 90.
Em "American Life", fez Madonna
percorrer um território minado no qual se cruzam o
rap e o folk, a eletrônica e o pop grudento dos primeiros
tempos. Poderia ter dado errado, mas é o primeiro álbum
desde "Erotica" (1992) a soar surpreendente.
No último dia 9, quando as tropas
americanas derrubavam estátuas de Saddam Hussein em
Bagdá, Mirwais falou com exclusividade à Folha,
por telefone, de Paris. Além das escolhas musicais
de Madonna em seu novo CD, ele explica por que, em sua nova
configuração, a popstar colocou na cabeça
a boina de Che Guevara e quis fazer discurso político.
Folha - Madonna quis fazer um disco político?
Mirwais - Sim. Hoje existe muita gente incomodada com
os efeitos do "estilo de vida americano". No show
business, há espaço para críticas. Basta
ver o grau de agressividade de Eminem, por exemplo. Madonna
quis fazer a crítica dela, porque ela não se
interessa por discursos como o de Eminem.
Folha - Mas tentar ser ousada como no clipe de "American
Life" e depois proibi-lo não é apenas mais
um golpe de marketing?
Mirwais - Do ponto de vista americano,
eu entendo e respeito a decisão. Em relação
ao resto do mundo, não vejo problemas porque não
se trata de um clipe antiguerra, mas de um clipe que fala
do sonho americano. As imagens que vemos hoje são muito
mais agressivas. Não me refiro apenas às imagens
do Iraque, mas as que vemos pelo mundo, como o massacre de
mais de 1 milhão de pessoas em Ruanda. Isso incomoda
as pessoas, e é preciso ser mostrado. Vejo a decisão
como um respeito ao sentimento patriótico, de não
ferir ainda mais aqueles que perderam familiares na guerra.
Folha - Sendo filho de afegã, como vê
a intervenção do governo Bush no Afeganistão
e no Iraque?
Mirwais - Preferiria não ter de ver essa situação
em pleno século 21. Acho que controlar o Iraque e o
Afeganistão não é uma maneira de acabar
com o terrorismo, como alegam os americanos. Na lógica
deles, é uma guerra estratégica. Entendo que
era preciso derrubar o regime de terror de Saddam,
mas não é esse, obviamente, o interesse dos
EUA na região.
Folha - Qual é a diferença entre "Music"
(2000) e "American Life"?
Mirwais - O novo disco tem mais
unidade porque houve menos intervenção de
vários produtores. Buscamos obter sonoridades mais
puras, menos eletrônicas, no sentido pop e dance. Quando
começamos a trabalhar em "Music", queríamos
fazer algumas experimentações que afastassem
Madonna do reinado exclusivo da dance. Mas tivemos que concluir
o trabalho rapidamente porque Madonna estava grávida.
Agora, fomos bem mais longe.
Folha - Mas a impressão é que "American
Life" é mais eletrônico que "Music",
não menos.
Mirwais - Muita gente vai estranhar porque não
fizemos um disco eletrônico no sentido pop. Outros vão
até acreditar que houve uma volta ao passado porque
podem achar que há menos tecnologia quando, na verdade,
há mais. Quando se escuta com atenção
as faixas, percebe-se que apenas na aparência elas são
menos eletrônicas. Até as acústicas foram
retrabalhadas em computador. Só na aparência
elas são simples.
Folha - E por que vocês quiseram se afastar
da dance music?
Mirwais - Porque a dance music se tornou uma coisa
muito chata. Pelo menos desde 99, não foi feito nada
que merecesse a atenção que se dá à
música eletrônica. Apenas a repetição
de fórmulas que já existem há mais de
dez ou 20 anos, como no caso do electro.
Folha - Vocês intencionalmente evitaram a sonoridade
electro?
Mirwais - Sim. Acho que o electro é uma música
que não funcionava. Só se tornou popular após
virar trilha de desfiles de moda.
Folha - E por que se interessou em fazer Madonna cantar
rap?
Mirwais - Porque queríamos provocar reações.
É ingênuo pensar que ela
tenha feito isso por inexperiência. Ela pensou: "Tenho
44 anos, sou mulher, branca, não sou rapper e portanto
vou cantar rap como nenhum negro americano faria" [risos".
Isso que é interessante fazer: trabalhar contra as
doutrinas.
Folha - Com a popularidade de artistas como Britney
Spears e Cristina Aguilera, qual espaço você
acha que Madonna preservou?
Mirwais - Essa é uma falsa questão. Ela
pode ter menos fãs hoje do que teve há 20 anos,
mas não é possível comparar a música
para adolescentes que Britney e Aguilera fazem com o trabalho
de Madonna. Afinal, ela tem 44 anos.

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