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Entrevista para a 'MTV Americana'
Madonna e eu recentemente sentamos para conversar,
e começamos discutindo sobre a faixa título
do álbum, no qual ela canta (e faz um rap) sobre a
vida moderna, estrelato, valores, leite de soja, yoga e pilates,
sobre tudo, exceto sobre a guerra. ...
Madonna: ["American Life"] foi como uma viagem
pelo caminho da memória, olhando
para trás em tudo o que alcancei e todas as coisas
que eu valorizei e todas as coisas que eram importantes para
mim. Qual é minha perspectiva agora? Eu lutei por tantas
coisas, eu tentei duramente ser a número um e estar
no topo, ter uma aparência boa, ser a melhor. E percebi
que muitas coisas que duram e as coisas que importam não
são nenhuma destas coisas.
Este país é incrível, não é
como nenhum outro país, que você pode vir de
lugar algum e não ter nada e se tornar o presidente
dos Estados Unidos, ou fazer as coisas que eu realizei, pelas
quais me sinto incrivelmente abençoada por ter realizado,
e tenho certeza que não poderia ter conseguido isto
em nenhum outro lugar. Eu sinto que a América mudou
durante os anos e que muitos valores parecem ser materialmente
orientados e muito superficiais. E todos nós parecemos
obcecados com a fama só pela a fama, não importa
o que - venda sua alma para o diabo se isto é preciso.
E também estamos completamente obcecados com a aparência.
E eu acreditei em muitas destas coisas, então muito
do disco, especialmente as três primeiras músicas
são como, "O que eu estava pensando?"
"O que ela estava pensando?" é como alguns
ouvintes reagiram ao trecho do rap em "American Life,"
uma rima divertida e auto-repressiva. Como foi que a MC Ciccone
teve a idéia?
Madonna: Basicamente, nós havíamos gravado
a música inteira e nós tínhamos esta
coisa instrumental no final e Mirwais [Ahmadzai, produtor]
disse, "Você quer saber de uma coisa, você
tem que fazer um rap".E eu fiquei tipo, "Fala sério,
Eu não canto rap".E ele continuou, "Sim,
você canta. Apenas vá até lá e
faça".Ele me encorajou totalmente. Não
tinha nada planejado, nada escrito, e ele apenas disse para
eu fazer um streaming da minha consciência, seja lá
o que estava pensando. Porque eu sempre estava bebendo leite
de soja no estúdio, e eu dirijo meu Mini Cooper para
o estúdio, pensei, "OK, deixe me apenas falar
sobre as coisas que gosto".Então entrei e a coisa
foi totalmente improvisada e obviamente ficou malfeito de
primeira, mas extraí todos meus pensamentos e depois
escrevi tudo o que havia dito e aperfeiçoei o tempo.
Então isto foi algo completamente espontâneo.
Uma das mulheres mais ricas e celebradas do mundo, declarando
que riqueza e fama e poder e "estas coisas", não
são importantes? Alguns irão zombar, é
claro. Mas tudo bem, Madonna diz que ela sabe do que está
falando.
Madonna: Quem melhor para dizer que estas coisas não
importam do que alguém que as experimentou? [As pessoas
devem dizer], "Como você pode dizer que elas não
importam? Como você pode dizer que dinheiro não
trará felicidade se você não tem muito
dinheiro? Como você pode dizer que a fama e a fortuna
não são uma garantia para a felicidade e alegria
e plenitude na sua vida?" Você tem que ter vivenciado
isto para saber. Porque você tem todas estas coisas,
eu tive todas estas coisas, e não tive nada senão
caos a minha volta. Então só estou compartilhando
o que sei com o mundo. Porque eu penso que nos tornamos completamente
consumidos em sermos ricos e famosos, nossa sociedade é
assim. E eu só quero dizer as pessoas, peguem isto
de mim, eu tenho todas estas coisas e nenhuma delas me trouxeram
um minuto de felicidade.
Norris: Então se eu entendi isto, as três
primeiras faixas são uma trilogia, no sentido. Tematicamente,
você está endereçando aquelas coisas que
você está colocando para trás.
Madonna: Bem, penso que elas são uma extensão
de "American Life".Elas estão examinando
coisas que eu valorizei e coisas que me peguei me preocupando,
me importando muito a respeito, e percebendo que aquelas coisas
não são importantes e esperando para sair debaixo
daquela nuvem, o mundo da ilusão.
Norris: Que "Hollywood" representa claramente.
Madonna: Sim, a indústria de entretenimento.
Hollywood não é o único
lugar onde isto acontece, é como uma metáfora
para o que Hollywood significa para nós agora. É
como o mundo da lantejoula, glamour e faz de conta.
Norris: Existem outras faixas no álbum onde
você parece lidar com coisas que realmente importam.
E tem uma música onde você parece estar mais
aberta do que nunca a respeito do seu relacionamento com seus
pais ("Mother and Father"). E tudo aquilo era algo
que você não parecia se sentir muito confortável
em lidar no passado.
Madonna: É engraçado, porque como você
disse o início do disco é tipo uma limpeza para
eliminar o que não é importante. E uma vez que
você limpou as teias de aranha você pode ver com
novos olhos coisas que realmente importam e são importantes
e se aproximar sem medo. Muitas vezes nós passamos
pela vida procurando por distrações para cobrir
a dor, quando o que deveríamos fazer de verdade é
enfrentar a dor e então não precisaríamos
da distração.
Sem dúvida, o maior fator para a faxina emocional
e para a nova claridade encontrada por Madonna reside no estudo
do misticismo judaico da Cabala, que ela primeiramente abraçou
na metade dos anos 90. Seu interesse na sabedoria parece apenas
ter aumentado - outros membros da família agora a estudam,
incluindo o marido Guy Ritchie, e houve uma imagem cabalística
atrelada em seu vídeo "Die Another Day."
Norris: Qual é a única grande mudança
em sua vida durante os últimos anos? Foi o casamento,
filhos, Cabala?
Madonna: Bem, são todas estas coisas. Obviamente
estudar Cabala mudou toda minha visão sobre a vida,
então isto me afetou como mãe, como esposa e
como amiga. Todas estas coisas.
[Cabala é] muitas coisas. Uma delas é que todos
nós estamos conectados. Que você e uma pessoa
que mora do outro lado do mundo são uma extensão
de mim. E que sentir coisas como inveja ou ciúmes ou
hostilidade ou qualquer uma destas coisas negativas que todos
nós sentimos uns pelos outros como seres humanos, é
como odiar a si próprio. E que consciência é
tudo e que o poder dos seus pensamentos e o poder de suas
palavras determinam seu ambiente, as coisas que você
atrai para você. Quando digo em "American Life",
"Não sou cristã e não sou judia",
é a idéia de que eu não quero ser identificada
com nenhum tipo de pensamento religioso, porque dizer que
eu sou negro ou branco ou católico ou judeu é
pensar de forma fragmentada. E por pensarmos de maneira fragmentada,
temos guerra, não nos vemos como extensão de
nós mesmos, como humanidade. Então eu penso
que esta é a grande concepção.
Norris: Muitas vezes está nas diferenças
em que focamos, e isto é o que cria conflito. É
a submissão que você sente pela nacionalidade
ou por uma etnia ou uma religião que...
Madonna: ... Ou eu sou um Nova Iorquino, eu sou Americano,
eu sou isto, eu sou aquilo. Você fica dentro da sua
caixa, e eu ficarei dentro da minha. É o que nos mantém
nesta consciência fragmentada e por isso somos todos
inimigos e por isso ninguém está falando com
os outros, é por isso que existe tanto sofrimento.
Norris: Sua vida diária é muito diferente
do que era antes da Lola nascer em 1995?
Madonna: È muito diferente do que era há
um ano atrás. Absolutamente.
Norris: A família é o foco e então
o resto vai se encaixando?
Madonna: Minha família, meu trabalho, minha
vida espiritual. Quero dizer, eu adoro assistir filmes e fazer
coisas tolas, coisas banais, mas vejo que tenho muito menos
tempo para estas coisas.
Eu sempre me perguntei porque será que ela sempre
pareceu desinteressada pelo passado.
Madonna: Meu próprio passado? Sou apenas uma
daquelas pessoas que gosta de manter as coisas se movendo
neste sentido [apontando para frente]. Apesar de não
ter feito isto escrevendo este disco. Eu fiz? Eu vejo em encarnações
mais novas de mim como uma versão menos envolvida do
que sou agora. E não quero ir para trás. Não
quero me apegar a uma versão menos evoluída
de mim.
Norris: Entã é difícil de achar
alguma coisa interessante ou válida no que você
criou há 10, 12, 15 anos atrás em sua arte?
Madonna: Eu posso olhar para
trás e ver coisas que fiz, pegar e escolher coisas,
e dizer, "É, isto é interessante."
Mas honestamente, não gasto muito tempo fazendo isto
porque tenho muito a dizer agora e muito a fazer agora.
Norris: Então se você pudesse estalar
os dedos e fazer qualquer coisa antes do Ray Of Light desaparecer,
você o faria?
Madonna: Não, absolutamente não. Não
quero fazer com que o meu passado desapareça, mas quero
aprender com as histórias e seguir adiante.
Norris: Haverá alguma celebração
ou alguma marca dos seus 20 anos na indústria musical?
Madonna: Esta ocasião momentânea? Para
te falar a verdade eu ainda não pensei nisto.
Norris: Se o disco é alguma indicação,
você parece estar num estado reflexivo. Mas, mais em
um nível pessoal.
Madonna: Eu deveria ter uma festa reflexiva? Todo mundo
pode vir e se sentar e não precisamos falar uns com
os outros, podemos apenas pensar! Vamos ter uma sessão.
Naquele tom espiritual, ao invés de American Life,
Madonna pensou em chamar seu disco Ein Sof, um termo cabalístico
que significa "sem fim", "sem limitação"
ou como a última música do álbum sugere
"contínuo", "como um círculo".
Norris: Uma de minhas músicas favoritas é
a última, "Easy Ride". Mas então você
diz que não quer que seja fácil.
Madonna: E toda vez que escuto aquela música,
eu penso, "E você não teve isto, OK?"
Norris: E a música fala sobre formar um círculo
completo. Você acha que o fez?
Madonna: Sim, e eu gosto da imagem de um círculo
de qualquer forma, porque não existe início
e nem fim. E para mim isto representa imortalidade e esta
é a essência da arte.
Norris: E você não irá daqui há
cinco anos a partir de agora, estar contestando o que disse
hoje sobre a vida e o que é importante?
Madonna: Eu não vou te dizer nenhuma destas
coisas. Não posso prever isto. Só posso dizer
a você que é onde estou no momento. Penso que
este é o início de uma incrível jornada.

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