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Jornal 'O Globo' - 1996.
O Globo: Imagina-se que Madonna seja o tipo do artista
que gosta de manter o controle absoluto sobre tudo o que faz.
Foi esse o caso de "Evita"?
Madonna: Não senti falta de controle. Obviamente,
quando é um show meu ou um disco meu, a palavra final
é minha, mas engana-se quem não saabe que a
gravação de um disco, por exemplo é um
trabalho de colaboração com o produtor e os
músicos. No cinema também é assim, e
nada foi difícil em "Evita" em termos de
colaboração. Confiei em Alan Parker, me entreguei
a ele e aos atores com total confiança.
O Globo: O que você e Eva Perón têm
em comum, além do fato de serem ambiciosas?
Madonna: Me identifico
com a coragem que ela precisou para sair de uma cidadezinha,
ir para uma cidade grande sem formação alguma,
tornar-se atriz de rádio e, depois se envolver com
política, casar com o presidente e exercer influência
sobre um país. Não fizemos as mesmas coisas,
mas me identifico com a determinação e a coragem
que ela deve ter precisado para chegar onde chegou.
O Globo: Alguns extras argentinos choraram durante
a filmagem do discurso de Eva Perón na sacada da Casa
Rosada, quando você canta "Don´t Cry For
Me Argentina". Qual foi o seu envolvimento emocional
com a cena?
Madonna: Foi muito emocionante por vários motivos.
Primeiro, pelo lado histórico: eu sabia que era um
lugar onde Eva tinha discursado. Foi como se a história
se repetisse. E, depois, ver que muitos extras argentinos
estavam chorando de verdade. Senti como se eles estivessem
revivendo a tristeza da morte de Eva.
O Globo: Mas alguns argentinos se ofenderam com alguns
comentários que você fez sobre o país...
Madonna: Eu não malhei a Argentina, de maneira
alguma! Amo a Argentina, que considero um país lindo.
Os únicos comentários que poderiam ser considerados
ofensivos foram: achei a comida gordurosa de mais, e isso
não é ruim, adoro comifa gordurenta. Reclamei
também da forma que a polícia tratou o meu assistente.
Fora isso, me diverti incrivelmente. Amo a Argentina!
O Globo: Você perdeu a mãe quando ainda
era muito pequena. Sua filha mudou a visão que você
tinha de sua própria infância?
Madonna: Me fez perceber o que eu perdi e me inspira
a dar a ela aquilo que não tive. Espero poder ter uma
vida longa, para poder estar sempre a postos para ajudá-la
no que for necessário.
O Globo: Como você explicará a sua filha
quem é Madonna, o ícone pop que lança
discos, faz videoclipes e filmes e posa para um livro de fotografias?
Madonna: Acho que não explicarei tudo de uma
só vez. Acho que direi a ela que sou uma artistas e
essas foram as formas que escolhi para me expressar. Tentarei
explicar a ela o que estava tentando dizer em cada situação
específica.
O Globo: Sua gravidez foi saudada como um acontecimento
pop, basta você espirrar para aparecer nas manchetes.
O que você acha das reações do mundo ao
que você faz?
Madonna: É perturbador, porque acho que o
público tem o maior fascínio sobre a vida particular
das pessoas famosas. Gostaria que prestassem mais atenção
nas questões governamentais e nas pesquisas científicas.
Isso não é um bom sinal.
O Globo: Mas você não quer constantemente
causar impacto?
Madonna: Como você disse, as pessoas prestam
atenção em cada espirro meu. Mas se você
acha que eu espirro para chamar atenção se engana.
O negócio é que as pessoas não sabem
de um monte de coisas ao meu respeito. Embora me acusem de
ter exposto tudo que existe para ser exposto a meu respeito,
não foi o que fiz. Se as pessoas soubessem tudo o que
quisessem saber a meu respeito, talvez não sentissem
tanta curiosidade.

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